Page 1
1 Metafísica – Uma Introdução Contemporânea Michael J. Loux (U. Notre Dame) Resumão (1a parte) de LOUX, M.J. (2002), Metaphysics – A Contemporary Introduction. 2a ed. Londres:Routledge. Confeccionado por Osvaldo Pessoa Jr. para a disciplina FLF0456, Teoria do Conhecimento eFilosofia da Ciência III, USP, 2006. O início aproximado de cada página do original está indicado entrecolchetes: [8], assim como quaisquer comentários adicionais. No original as seções não vêm numeradas. PREFÁCIOS [pp. xi-xiii]Seguindo a tradição de Aristóteles, metafísica é a teoria do ser enquanto ser(Aristóteles), a mais geral das disciplinas, a busca da natureza e estrutura de tudo o que há.Destaque é dado às categorias do ser, que são os gêneros mais gerais que se aplicam àscoisas. Há discordância quanto a quais são as categorias, quais suas propriedades e quaistêm mais prioridade. O livro de Loux começa examinando uma questão que está entre as mais antigas eimportantes, que é o debate dos universais. Nossa teoria metafísica deve incluir entre suascategorias básicas coisas que são comuns a diferentes objetos? Os realistas metafísicosafirmam que sim (cap. 1), enquanto os nominalistas defendem que não (cap. 2). A seguir,examinam-se a natureza e estrutura dos particulares concretos (cap. 3) e dos objetoscomplexos, associados a proposições, fatos, estados de coisas e eventos (cap. 4).Proposições estão sujeitas a modalidades, como o possível, o necessário, o impossível e ocontingente. A natureza da modalidade pode ser explicitada com a noção de “mundospossíveis” (cap. 5). A seguir, estuda-se a persistência no tempo dos objetos ordinários (cap.6). Por fim, apresenta-se o debate entre realistas e antirealistas, que toma a noção deverdade como foco central (cap. 6).0. INTRODUÇÃO0.1. A Natureza da Metafísica – Algumas Reflexões Históricas [2] O termo “metafísica” surgiu como título de uma coletânea de textos deAristóteles, escritos no séc. IV a.C. [O título só foi dado por Andrônico de Rodes no séc. Ia.C., “Ta Meta ta Phusika”, que significa “O que vem depois dos escritos sobre anatureza”.] Aristóteles chamava sua disciplina de “filosofia primeira” ou “teologia”. Emalguns trechos, afirma que seu objetivo é o conhecimento das causas primeiras. [3] Suameta é a apreensão da verdade, o que é compartilhado pela matemática e pela ciência. Masenquanto a ciência se volta para a natureza e estrutura das substâncias materiais, ametafísica estuda a substância imaterial. A causa primeira, para Aristóteles é Deus ou oMovente Imóvel.Aristóteles também define a metafísica como o estudo do “ser enquanto ser”.Assim, ela é uma ciência universal, que considera todos os objetos que há. Ou seja, elaenfoca os objetos das ciências particulares e da matemática, mas sob uma outra perspectiva,
Page 2
2aquela do ser enquanto ser, das coisas enquanto existentes. Central a este projeto está odelineamento das categorias fundamentais. [4] Aristóteles tinha consciência da tensão entreessas duas concepções da metafísica – busca das causas primeiras e estudo do ser enquantoser – mas argumentou que elas se identificariam. Esta concepção dupla da metafísica foi herdada pela Idade Média e também pelosracionalistas do continente europeu (sécs. XVII e XVIII), mas estes ampliaram o escopo dametafísica para incluir os fundamentos da física, a distinção entre seres vivos e inanimados,e o que é único no ser humano, [5] que envolve a relação entre mente e corpo, e a questãodo livre arbítrio. Para justificarem sua definição mais ampla de metafísica, os racionalistastomaram o objetivo da metafísica como sendo o estudo dos ser, em todas as suasperspectivas. Christian Wolff [1729] articulou esta distinção de maneira clara. Em primeirolugar, a “metafísica geral” estuda o ser enquanto ser; e dentre as metafísicas especiais,haveria a “cosmologia”, que estuda o ser enquanto coisa mutável, a “psicologia racional”,que estuda o ser de seres racionais como os humanos, e a “teologia natural”, que estuda oser de Deus. [6] Outra diferença entre a metafísica aristotélica e a dos racionalistas modernos éque a primeira era relativamente conservadora, próxima do senso comum, ao passo queracionalistas como Baruch Spinoza e Gottfried Leibniz montaram sistemas metafísicosbastante especulativos e contra-intuitivos. E foi justamente este caráter abstrato eespeculativo da metafísica que se tornou alvo da crítica dos empiristas britânicos (porexemplo, David Hume, 1739). Immanuel Kant também criticou o projeto metafísico,argumentando que não temos acesso direto às coisas em si, mas apenas ao conteúdosensorial estruturado pelo entendimento. [7] As teses que o metafísico deseja defendeririam além dos limites do conhecimento humano. Em lugar desta “metafísicatranscendente”, Kant defende uma “metafísica crítica”, cujo objetivo não é descrever umarealidade que transcende a experiência sensorial, mas o delineamento dos traços mais geraisde nosso pensamento e conhecimento. Este projeto de metafísica crítica foi retomado no séc. XX por Robin G.Collingwood (1940), Stephen Körner (1974), Nicholas Rescher (1973) e Hilary Putnam(1981, 1987). Peter Strawson (1959) inicia seu livro Individuals também defendendo que oobjeto da metafísica é a descrição de nossos esquemas conceituais, mas depois ele passa auma abordagem mais próxima do aristotelismo. Segundo esses autores, [8] a metafísicaseria um projeto “descritivo”, cujo objetivo é a caracterização de nosso quadro conceitual,do corpo de representações com a qual concebemos o mundo e dos seus princípiosreguladores. Dentro desta concepção de metafísica enquanto esquema conceitual, há os quevêem tais esquemas como imutáveis, e outros que os vêem como mudando com revoluçõescientíficas e culturais. Para estes, a tarefa da metafísica é comparativa: ela buscaria mostraras diferentes formas que entram em jogo nos diferentes esquemas que historicamentedesempenharam um papel em nossas tentativas de retratar o mundo. Já para os filósofos que tomam a metafísica no sentido pré-kantiano (quer sigam acautela aristotélica ou a especulação racionalista), a metafísica tem como objetivo adescrição da natureza e estrutura do mundo em si. O estudo de nossas estruturas conceituaisé diferente do estudo do mundo, mas o primeiro pode revelar traços do segundo, na medidaem que ele espelhe o mundo. [9] Por outro lado, há partidários dos esquemas conceituais que argumentam que éincoerente a própria idéia de um objeto separado e independente de esquemas conceituais.Tal posição é uma versão do que é chamado de idealismo, sendo defendida por Richard
Page 3
3Rorty (1979). [10] Os “esquematistas conceituais” mais moderados aceitam que a idéia deuma realidade independente é coerente, mas negam que ela possa ser conhecida: sóconhecemos nossos esquemas conceituais. Contra isso, alguns metafísicos tradicionais têmlevantado a objeção de que o esquematista, para ser consistente, teria que admitir que opróprio conhecimento dos esquemas conceituais é impossível, pois só conheceríamos osesquemas que representam tais esquemas! [11] Para o metafísico tradicional, nossos esquemas conceituais são justamente ocaminho para termos acesso às coisas em si. As teses metafísicas, porém, são falíveis,podem estar erradas. Essa discussão entre os tradicionais e os críticos faz parte da própriametafísica, sob o tópico “realismo versus antirealismo”, que debate a relação entrepensamento e mundo. 0.2. Metafísica enquanto Teoria das CategoriasAssumamos, para iniciar nossa discussão, uma postura realista, tradicional, pré-kantiana. [12] O estudo do “ser enquanto ser” faria parte da metafísica geral, ao passo que oestudo da causa primeira seria tema da teologia natural. Seguindo a classificação de Wolff,haveria ainda a cosmologia, que estudaria o mundo material e suas mudanças, e apsicologia racional, que se concentraria no problema mente-corpo e na questão do livrearbítrio. Loux escolheu se concentrar apenas na metafísica geral. Hoje em dia, tópicos deteologia natural são estudados em aulas de “filosofia da religião”, os de psicologia racionalem cursos de “filosofia da mente”, [13] sendo que a questão do livre-arbítrio é debatidaespecialmente na sub-área de “teoria da ação”. Na metafísica geral, o objetivo principal é a identificação e caracterização dascategorias sob as quais as coisas são classificadas. Tomemos um objeto familiar comoSócrates: o que é Sócrates? [14] É um filósofo, um homem, um mamífero, um animal, etc.Ele faz parte de classes cada vez mais gerais; a classe mais geral na qual se enquadraSócrates – antes da última que seria dizer que ele é um “ente”, um “ser”, uma “coisa”, um“existente” – seria a sua categoria, que para Aristóteles seria a categoria da substância.[Asdez categorias aristotélicas são: substância, qualidade, quantidade, relação, lugar, tempo,posição (sentado), estado (vestido), ação (escrever) e paixão (estar doente).] [15] As discussões em metafísica obviamente não se resumem a uma classificaçãode entidades em categorias. Tais discussões são tipicamente questões sobre “que objetosexistem?”. Tomemos o exemplo de cambalhotas: “cambalhota”, enquanto ente geral,existe? Um filósofo pode responder que sim, pois muitas pessoas dão cambalhotas, mas umoutro, reconhecendo que as pessoas de fato praticam o movimento que chamamos“cambalhota”, pode negar que exista uma classe especial de entes chamada “cambalhota”.[16] A discussão é sobre se nossa ontologia (a lista filosófica oficial sobre as coisas que há)deve incluir cambalhotas. Naturalmente não encontraremos filósofos discutindo seriamentea existência de cambalhotas, pois trata-se de um tópico muito específico. O que elesestariam discutindo é se eventos (como cambalhotas) devem fazer parte da ontologiafundamental do mundo, ou seja, se existe uma categoria de eventos.A discordância sobre categorias é pois uma discordância sobre o que existe. Existempropriedades? Relações? Eventos? Substâncias? Proposições? Estados de coisas? Mundospossíveis? [17] Por vezes, há um acordo sobre a existência de uma categoria, masdiscordância sobre se ela pode ser “reduzida” a outra categoria. Por exemplo, pode-se
Page 4
4aceitar a existência de entidades materiais, mas defender que elas são redutíveis àsqualidades sensoriais. O debate, então, gira em torno de quais seriam os elementosprimitivos ou básicos da ontologia, ou seja, se uma certa categoria seria primitiva ouderivada. 1. O PROBLEMA DOS UNIVERSAIS I – REALISMO METAFÍSICO1.1. Realismo e Nominalismo [21] A classificação que fazemos dos objetos do mundo reflete “semelhançasobjetivas” entre as coisas. Esta tese é um truísmo [obviedade] pré-filosófico, mas tem sidobastante discutida ao longo da história da filosofia. Haveria uma explicação geral para otruísmo de que as coisas podem concordar quanto aos seus atributos? Ou seja, haveriaalgum princípio (“tipo geral”, “forma de fato”) que garantiria a concordância de atributos,exemplificada por duas coisas que têm a mesma cor amarela?No Parmênides, Platão respondeu que sim: coisas semelhantes compartilhariam aForma. [22] Este ponto de vista tem sido aceito por muitos filósofos, como BertrandRussell (1912), Peter Strawson (1959) e David Armstrong (1989), apesar de exprimiremsuas idéias em terminologias diferentes. Ao invés de falarem em “coisas compartilhandouma Forma”, eles dizem que “coisas instanciam (exibem, exemplificam) uma únicapropriedade (qualidade, atributo)”. Tal posição é chamada de “realismo metafísico” [melhorseria “realismo de universais”, para não confundir com a tese, também chamada de“realismo metafísico”, de que o mundo tem uma realidade que independe do observador –confusão esta apontada por Loux na nota 4]. O realismo se opõe ao “nominalismo”. Conforme veremos no cap. 2, uma correntenominalista [teoria dos tropos] busca uma explicação diferente para a concordância dosatributos, que não faça referência a entidades compartilhadas; outra corrente [nominalismoaustero] defende que nenhuma explicação é necessária. 1.2. A Ontologia do Realismo MetafísicoOs realistas distinguem entre duas categorias de objetos: particulares e universais.[23] Um particular ocupa uma única posição espaço-temporal, ao passo que um universal éuma “entidade repetível”, distribuída, instanciada por diferentes particulares. Haveriauniversais monádicos (que se aplicam a um único particular) e haveria relações, queenvolvem dois ou mais particulares (ou seja, podem ser diádicos ou, para n objetos, “n-ádicos”). Um par de particulares “entra em” uma relação [ver p. 30].Os universais monádicos são usualmente chamados de “propriedades”, mas há osque fazem uma distinção entre propriedade, que é “possuída” pelo particular, [24] e gênero[kind], ao qual o particular “pertence”. Um gênero seria um “universal individuativo”, oque significa que os membros de um gênero são indivíduos, diferentes entre si, e diferentesdos indivíduos de outros gêneros. Há também “graus” de concordância entre atributos: umcão e um gato são ambos do gênero mamífero, mas não são tão próximos entre si quantoum beagle e um labrador.
Page 5
5Os universais, assim, vêm em hierarquias de generalidade, [25] levando a umaontologia bastante complexa. Mas, apesar de tal complexidade, tal teoria metafísica éfrutífera para explicar diversos fenômenos, como o “discurso de sujeito-predicado”[predicação] e a “referência abstrata”, conforme veremos a seguir.1.3. Realismo e PredicaçãoNa sentença ‘Sócrates é corajoso’, todos concordam que o objeto escolhido para sefazer referência é Sócrates. Os realistas (como Alan Donagan, 1963), porém, sustentamigualmente que o termo de predicado ‘corajoso’ também tem “força referencial”. [26] Orealismo adota a concepção de “verdade por correspondência”: ‘Sócrates’ corresponde aalgo, e ‘corajoso’ também teria que corresponder. Se agora considero a sentença ‘Platão écorajoso’, o termo ‘corajoso’ corresponderia à mesma entidade predicada na frase anterior(referente a Sócrates). [27] Mas qual é a natureza desta relação de correspondência? Qual “o gênero de relaçãoreferencial que liga predicados a propriedades, gêneros e relações”? [Notar nesta frase ouso dos termos ‘gênero’ e ‘relação’ em dois níveis metalingüísticos diferentes] [28] Alguns (como Gustav Bergmann, 1959) defendem que a relação que ospredicados têm com os universais é a mesma que um nome (como ‘Sócrates’) tem com ocorrespondente particular. Um exemplo dado é a sentença ‘Isto é vermelho’, que consisteda cópula de dois nomes, sendo que ‘vermelho’ corresponderia à cor da mesma maneiraque ‘isto’ corresponde a um objeto apontado. [29] Mas este exemplo se faz valer de umaambigüidade dos nomes das cores, que funcionam tanto como adjetivos quanto comosubstantivos. O exemplo não funcionaria tão bem para frases como ‘Isto é circular’, para asquais não é claro que adjetivo ‘circular’ corresponda a algum universal – apesar de osubstantivo ‘circularidade’ corresponder.Mesmo assim, muitos realistas defendem que um termo de predicado, além de serverdadeiro de um particular (ou satisfeito por um particular), também exprime ou conotaum universal. Na argumentação a favor desta tese, um ponto que é defendido é que “aplicarum termo de predicado a um objeto é mais do que meramente identificar o objeto comomembro de um conjunto de objetos”, mas é também “identificar o universal em virtude doqual os objetos pertencem ao conjunto”. Outro argumento é que uma frase como ‘Sócrates é corajoso’ pode ser parafraseadapor uma frase em que o universal fica explícito: ‘Sócrates exemplifica coragem’. [30] ‘Coragem’ aqui denotaria o universal coragem. Os realistas argumentam que tal paráfrasepode sempre ser aplicada, convertendo ‘a é F’ em ‘a exemplifica a F-idade’. Haveria entãouma relação referencial entre o predicado e o universal, que o realista chama de“expressão” ou “conotação”. Quando houver uma sentença de sujeito-predicado verdadeira,o universal expresso pelo predicado é exemplificado pelo referente do termo de sujeito dasentença. Para o realista, isso explica de maneira intuitiva como sentenças de sujeito-predicado podem corresponder ao mundo, [31] e isso em consonância com a noção de queo particular, ao qual o sujeito se refere, instancia a “concordância de atributos” estabelecidapelo predicado.
Page 6
61.4. Realismo e Referência AbstrataOutra vantagem do realismo metafísico seria dar uma explicação para o fenômenoda referência abstrata. Exemplos de um “termo singular abstrato” são: “triangularidade”,“sabedoria”, “humanidade” e “coragem”. Se sentenças como ‘triangularidade é uma forma’ou ‘a sabedoria é a meta da vida filosófica’ forem verdadeiras, [32] então os termossingulares abstratos devem estar servindo de nomes para os universais. Nesse caso, taissentenças só podem ser verdadeiras se os universais existirem. [33] Os realistas afirmamque só sua concepção consegue explicar porque algumas sentenças contendo um termosingular abstrato são verdadeiras. A mesma observação valeria para sentenças que não contêm tais termos, mas quefazem referência a universais, como ‘este tomate e esta carro de bombeiro têm a mesmacor’, onde o universal em questão é cor que os dois objetos compartilham. Este e o anteriorsão casos de referência abstrata. [34] Nota-se que essas afirmações são independentes da teoria realista de predicação,vista na seção anterior. Nota-se também que se houver uma teoria nominalista que expliquea predicação ou que dê conta da referência abstrata, então os argumentos realistas perdemsua força. Veremos que os nominalistas se esforçaram por vencer esse desafio. [35]1.5. Restrições no Realismo – ExemplificaçãoAlguns realistas não concordam com a tese de que qualquer termo geral ouconcordância de atributo corresponda a um universal específico, de forma que eles impõemrestrições à versão ilimitada do realismo de universais.Em primeiro lugar, notemos que uma versão irrestrita do realismo metafísico leva aum célebre paradoxo. Considere o termo geral ‘não exemplifica a si mesmo’ ou ‘não-auto-exemplificante’. [36] Ele se aplica a particulares como Alexandre Magno e ao número 2,mas não a universais como “incorporiedade” ou “a propriedade de ser idêntico com simesmo”. De acordo com um realismo irrestrito, seria uma propriedade. O paradoxo surgequando analisamos se “a propriedade de ser não-auto-exemplificante” (“p-ñAE”) é auto-exemplificante (AE) ou é não-auto-exemplificante (ñAE). Se “p-ñAE” for AE, então apropriedade de ser ñ-AE se aplica a “p-ñAE”, e ele é ñAE. Mas se “p-ñAE” for ñ-AE, entãonão é o caso que “p-ñAE” seja ñAE, ou seja, ele é AE. Mas aí voltamos à condição inicial,e o ciclo argumentativo prossegue ad infinitum! (Esta é a versão do “paradoxo de Russell”,da teoria dos conjuntos, aplicado a propriedades.) Para evitar o paradoxo, é preciso negarque haja um universal associado ao termo geral “não exemplifica a si mesmo”.Em segundo lugar, há um regresso ao infinito que foi apontado pela primeira vezpor Platão, no Parmênides (131e-132b). Segundo o esquema platônico para explicar aconcordância de atributos, se vários objetos são F, isso ocorre porque todos sãoexemplificações do universal F-dade. Porém, sendo assim, podemos dizer que esses váriosobjetos são “exemplificações de F-dade”, um atributo que é explicado pelo fato de todosserem exemplificações do universal “exemplificação de F-dade” [poderíamos teradicionado o sufixo -dade a esta expressão, se quiséssemos ressaltar a analogia]. [37] Masagora temos um novo atributo “exemplificação da exemplificação de F-dade”, que éexemplificado por todos, de forma que existiria um universal “exemplificação daexemplificação da exemplificação de F-dade”, ad infinitum. A conclusão é que se
Page 7
7quisermos aceitar o esquema explicativo de Platão, tal explicação nunca poderia sercompletada, pois haveria uma série infinita de universais exemplificados pelos objetos.Loux mostra como este mesmo problema afeta a teoria realista de predicação (visto naseção 1.3). [38]Alguns realistas resolvem esse problema negando que cada um dos universais dasérie infinita seja distinto: todos seriam versões do mesmo universal F-dade. Outros,porém, simplesmente constatam que um regresso ao infinito não é um círculo vicioso, deforma que ele pode ser tolerado. [39] Armstrong (1989) argumenta, inclusive, que aregressão na teoria da predicação afeta tanto nominalistas quanto realistas. Há uma terceira versão do argumento de regressão ao infinito que é consideradamais problemática para a maioria dos realistas. [40] Já vimos que se for o caso que ‘a é F’,então tanto a quanto a F-dade devem existir. Além disso, requer-se também que “aexemplifica a F-dade”, mas isso exprime uma relação entre a e F-dade. O realista defendeque relações também sejam universais, de tal forma que ele precisa postular uma espécie deexemplificação de 2a ordem para assegurar que a e a F-dade tenham a relação deexemplificação (de 1a ordem). Isso gera então uma regressão ao infinito. Este argumento éuma versão daquele dado por Francis Bradley (1930), cuja finalidade era mostrar que nãohá relações. [41] A solução mais aceita entre os realistas é que sua teoria não deve seaplicar à noção de exemplificação. Para justificar isso, alguns argumentam que aexemplificação não é uma relação, pois a exemplificação seria anterior a qualquer relação.Uma relação liga objetos justamente por meio de um elo de exemplificação, de maneira quea exemplificação seria antes um ligação ou nexo não-relacional (tie or nexus). Estaconclusão pode ser usada para dissolver as duas versões anteriores do argumento deregressão. [42]1.6. Restrições Adicionais – Predicados Definidos e Não-DefinidosAlguns realistas defendem restrições adicionais ao realismo de universais. Oprimeiro caso envolve predicados como ‘solteiro’. Segundo o realista, há um universalligado a ele. Mas este universal é uma propriedade que algo tem apenas no caso em que eletenha a propriedade de ser um Homo sapiens, de ser masculino e de ser descasado. Quantaspropriedades estariam envolvidas aqui? Além das três últimas citadas, seria necessáriotambém um quarto predicado, o de ser solteiro, ou não precisaríamos ser redundantes?Este tipo de preocupação se estenderia também para predicados como “descasado”.Não se poderia dizer que “descasado” é verdadeiro de algo apenas no caso em que lhe faltea propriedade correspondente a “casado”? Problemas desse tipo levaram alguns realistas, como Bergmann (1954) e Donagan(1963), a fazerem uma distinção entre predicados definidos e não-definidos [undefined]. Ospredicados não-definidos seriam primitivos, e estariam diretamente correlacionados comuniversais. Já os predicados definidos [no sentido, é claro, de terem uma definição, não nosentido de serem nítidos, exatos] a partir dos primitivos não corresponderiam a universais. [43] Um problema com esta distinção é que predicados não vêm com uma divisãonítida entre primitivos e definidos. Tal divisão dependeria de como a linguagem éformalizada, o que seria inaceitável para uma questão ontológica. Realistas de tendênciaempirista (do começo do séc. XX) propuseram que os predicados primitivos seriam aquelesque têm prioridade epistemológica, como os de cores, sons, cheiros, formas simples, etc.
Page 8
8Esta proposta não é hoje muito aceita por causa da dificuldade de reduzir predicados daciência teórica, da ética etc., a predicados perceptuais. [44]Há outro problema, apontado por Ludwig Wittgenstein (1953), de que nem sempreé possível definir um predicado (como “jogo”) em termos de predicados mais simples, deforma a fornecer condições necessárias e suficientes para se definir o predicado complexo.[45] Autores que levam a sério esta objeção, como Loux (1978), são holistas a respeito deuniversais, ou seja, rejeitam a redução de um conjunto de universais a outro. Assim,terminam por aceitar que universais associados a ‘solteiro’ ou ‘descasado’ sejam tão reaisquanto o associado a ‘vermelho’. Com relação à sugestão de Wittgenstein, de que seriaimpossível identificar um universal associado ao termo ‘jogo’, retrucam que tal universalseria simplesmente a propriedade jogo. Realistas como Armstrong (1989) concordam com os empiristas que se deverestringir os predicados interessantes, mas discordam que os predicados interessantes sejamos perceptuais e que se deva tentar traduzir ou definir todos os outros predicados em funçãodestes primitivos. Esses realistas também acusam os holistas ou antireducionistas deapriorismo, ou seja, a visão de que podemos determinar quais são os universais apenasrefletindo sobre a estrutura da linguagem. [46] Para esses realistas, a questão de quaisuniversais existem é uma questão empírica que deve ser resolvida pela investigaçãocientífica. Esta posição é chamada de realismo científico. Em última instância, seriam ospredicados da física que teriam força ontológica. Mas, neste caso, o que dizer dos predicados que não fazem parte das teorias físicas?Uma abordagem menos radical aceita que haja predicados e termos abstratos que não fazemparte da física, mas ela dá prioridade ontológica para propriedades, gêneros e relações dafísica. A relação entre predicados não-físicos e os físicos não seria de redução: aqueles nãopoderiam ser analisados em termos destes. Mas os predicados físicos determinariam oufixariam ontologicamente os não-físicos. Em outras palavras, universais não-físicos seriamsupervenientes em relação aos universais físicos (Jaegwon Kim, 1993). A segunda abordagem, mais radical, é a dos eliminativistas, que negam quepredicados sem base na física tenham força ontológica (Paul Churchland, 1990). [47] Nossamelhor teoria da natureza do mundo é aquela delineada pela física madura; assim, “namedida em que nosso relato não-científico do mundo é incompatível com a física madura,ele é falso.” 1.6. Há Atributos Não-Exemplificados?A questão mais importante que divide os realistas é a idéia de universais não-exemplificados, ou seja, a idéia de que haja universais que não são, nunca foram e nuncaserão instanciados em um particular. Esta ausência de instâncias pode ser contingente,como no caso de formas complicadas de objetos físicos: tais objetos poderiam ter uma certaforma complicada, mas de fato não têm. Ou, conforme alguns argumentam, esta não-exemplificação pode ser necessária, como no caso de um quadrado circular. Há algumaevidência de que Platão (Fédon 73a-81a, República, 507b-507c) acreditava em universaisnão-exemplificados. E é plausível supor [48] que Aristóteles aceitava apenas universaisexemplificados, ao escrever que se tudo fosse branco, a cor preta não existiria (Categorias,11, 14a8-10). Armstrong (1989) também defende esta posição. Loux chama então essasduas posições de “realismo platônico” e “realismo aristotélico”.
Page 9
9Os aristotélicos consideram que propriedades, gêneros e relações precisam estarancorados no mundo espaço-temporal. Eles discordam da “ontologia de dois mundos” dePlatão, que separa universais de um lado e particulares do outro, e que para explicar comonós temos acesso aos universais, diz que este conhecimento é inato, a priori. Osaristotélicos tendem a negar o conhecimento inato, supondo que nosso conhecimento dosuniversais advém da observação empírica do mundo. Para eles, conhecemos os particularesapenas porque conhecemos seus gêneros, suas propriedades e suas relações; e conseguimosconhecer gêneros, propriedades e relações [49] através do contato epistêmico com osparticulares que os exemplificam.Já os platonistas argumentam que as mesmas considerações semânticas que noslevam a propor universais exemplificados também nos levariam a universais não-exemplificados. Suponha que uma pessoa P enuncie uma proposição, como ‘a é F’, queseja falsa. P afirmou alguma coisa, mas o quê? Ora, o significado do que P enunciou nãopode depender da veracidade ou falsidade da proposição. Assim, P assevera, falsamente,que a exemplifica a F-dade, de forma que este universal existe, mesmo que nenhumparticular jamais o exemplifique. Para os platonistas, todos os universais são seres necessários, ao contrário dosparticulares, que seriam contingentes. [50] A existência de uma propriedade, gênero ourelação seria necessária, mas sua exemplificação ou instanciação seria contingente. Muitos platonistas negam que seja preciso adotar a ontologia dos dois mundos, poiso nexo da exemplificação amarra os dois mundos (dos universais e dos particulares). Paraestes, os universais exemplificados podem ser conhecidos pela observação empírica; já osuniversais não-exemplificados são obtidos por extrapolação. [51: Notas do capítulo] [52][53] [54]2 O PROBLEMA DOS UNIVERSAIS II– NOMINALISMO2.1. A Motivação para o NominalismoO nominalista nega que haja universais. Há razões diferentes para esta recusa. [55] (i) Um primeiro foco de ataque é a noção de exemplificação múltipla. “De acordocom o nominalista, a afirmação de que particulares numericamente diferentes exemplificamum e o mesmo universal leva a incoerência” (este argumento aparece em Platão: Filebo15b, Parmênides 131a-e). Não seria possível que diferentes particulares, localizados emregiões espaciais desconexas, exemplificassem o mesmo universal – argumenta onominalista – pois senão teríamos que admitir que uma mesma propriedade, por exemplo“vermelho”, está a 15 km de si mesma, o que seria falso.(ii) Uma segunda objeção geral do nominalista é que “é impossível fornecer umrelato não-circular das condições de identidade de coisas como propriedades, gêneros erelações” (este ponto foi salientado por Willard Quine, 1960). Segundo este argumento, sópodemos introduzir um gênero de objeto em nossa ontologia se pudermos fornecer umadescrição de quando temos um e o mesmo objeto daquele gênero e quando temos umnúmero diferente de tais objetos. No caso dos universais, isso não pode ser feito porreferência aos particulares que os exemplificam, pois claramente dois universais diferentes(homem e bípede implume) podem ser instanciados pelo mesmo conjunto de particulares.[Uma exceção seria o universal “conjunto”, cuja condição de identidade é não-circular; dois
Page 10
10conjuntos seriam idênticos se compartilharem todos seus elementos, ver p. 57.] O quedistingue universais não é sua extensão (conjunto de instanciações), mas seu conteúdo. [56]Para explicar qual a diferença de conteúdo entre dois universais, precisamos introduziroutros universais, mas esta estratégia só funcionaria se estes forem de antemãonumericamente distintos. (iii) Uma terceira linha de ataque envolve as questões examinadas no capítuloanterior. Afirma-se que o realismo metafísico [de universais] seria necessariamenteregressivo, ou seja, envolveria uma regressão viciosa ao infinito. (iv) Um quarto argumento,epistemológico, é que o realismo não conseguiria explicar como nós, enraizados no mundoconcreto dos particulares, poderíamos conhecer entidades abstratas como propriedades,gêneros e relações.Cada uma das quatro objeções mencionadas acima não tem força, individualmente,para derrubar o realismo metafísico. O primeiro argumento, por exemplo, supõe que umuniversal deve ser associado a uma localização espaço-temporal, mas realistas comoRussell (1912) negam isso. [57] Mesmo aqueles realistas que supõem que um universaltenha uma localização espacial (Donagan, 1963) negam que uma entidade única não possaocupar regiões espaciais desconexas. Alguns nominalistas, como David Lewis (1983),aceitam esta defesa realista: “por ocorrerem repetidamente, universais desafiam princípiosintuitivos; mas esta objeção não é danosa, pois, em linguagem simples, as intuições foramfeitas para os particulares”.Com relação à segunda objeção, alguns realistas procuraram elaborar condiçõessatisfatórias de identidade para universais, ao passo que outros consideram que a exigêncianominalista não é apropriada (Loux, 1978). [58] Nesta linha, argumenta-se que mesmo acondição de identidade de particulares é circular, já que depende de localizações espaço-temporais, que por seu turno dependeriam de particulares. Loux considera que a motivaçãocentral que move os nominalistas também não é esta segunda objeção. A terceira objeção critica a conclusão realista de que a exemplificação é umaligação ou nexo, e não uma relação. Os nominalistas consideram esta solução ad hoc ouentão artificial, mas não uma razão suficiente para julgar que o realismo foi refutado. Aquarta objeção também não tem muita força, por si só. Assim, a origem do nominalismo não é nenhum argumento contra a posição dorealismo metafísico [de universais]. Sua origem estaria, segundo Loux, em uma certaconcepção da empreitada metafísica. Em analogia com a construção de teorias científicas,[60] na construção de teorias metafísicas um papel central é desempenhado pelo princípiode simplicidade ou parsimônia, que diz o seguinte: “dadas duas teorias com igual poderexplicativo, é preferível a teoria que postula um número menor de distintos tiposirredutíveis de entidades”. Segundo este ponto de vista, o problema do realismo metafísicoé que sua ontologia postula duas categorias irredutíveis: particulares e universais. Mas,segundo o nominalista, todo o trabalho do realismo pode ser realizado com apenas umacategoria: os particulares. A origem desta concepção está na filosofia do maior nominalista medieval,Guilherme [William] de Ockham. A primeira vítima de seu princípio de simplicidade –conhecido posteriormente como “navalha de Ockham” – foram justamente os universais,enquanto entidades não-lingüísticas.
Page 11
112.2. Nominalismo Austero[61] Os nominalistas argumentam que uma teoria metafísica que postula somenteparticulares explica tanto quanto o realismo metafísico, dando conta dos fenômenos daconcordância de atributos, predicação e referência abstrata. No entanto, não existe umaúnica teoria nominalista básica, como ocorre no caso do realismo metafísico, pois osparticulares que são propostos nas diferentes teorias nominalistas são de tipo bemdiferentes. Loux exemplifica essa variedade com três metafísicas nominalistas diferentes: onominalismo austero, o nominalismo metalingüístico e a teoria do tropo. Para o nominalismo austero, só existem particulares. A questão de quais são osparticulares é sujeita a debate: pode incluir objetos cotidianos, ou no caso de um realistacientífico eliminativista, pode incluir apenas as partículas elementares da física. [62] De qualquer forma, o nominalismo austero lida com o fenômeno da concordância deatributos como sendo um aspecto fundamental e não analisável do mundo (Quine, 1948).Ou seja, é um fato básico irredutível que objetos diferentes concordam em atributos, comoserem amarelos, corajosos ou triangulares. O realista metafísico também parte de um fatofundamental, a existência de universais (como a triangularidade). O nominalista austero,porém, propõe que este conceito de primitivo ou fundamental seja invocado um passoantes, tomando como fundamental o fato de que certas coisas são triangulares. O nominalista austero argumenta também (Pears, 1951) que o uso legítimo deuniversais para explicar a concordância de atributos necessitaria de uma definiçãoindependente de universais. Senão, cair-se-ia numa pseudo-explicação, como aquela queexplica o sono pela “virtus dormitiva”. [63]Os nominalistas austeros também apresentam uma teoria da verdade para apredicação, partindo de alguns pontos em comum com o realista, como a aceitação daconcepção de verdade por correspondência. Segundo eles, o que torna verdadeira umasentença da forma ‘a é F’ é justamente que a é F (Quine, 1948; Price, 1953; Sellars, 1963).[64] A correspondência entre a linguagem e o mundo se fundamenta em dois conceitosreferenciais: a nomeação [ou denotação] (‘Sócrates’ denota Sócrates) e a satisfação(‘corajoso’ é satisfeito por certas coisas, incluindo Sócrates). [65]Com relação a sentenças com referência abstrata, os nominalistas austeros mantêmsua estratégia de interpretar termos que aparentemente conotam universais como maneirasdisfarçadas de referir a particulares concretos. Como exemplo inicial de paráfrasenominalista austera, a sentença ‘Sócrates exemplifica coragem’ seria na verdade ‘Sócrates écorajoso’. [66] Uma sentença envolvendo um termo singular abstrato, como ‘Atriangularidade é uma forma’, é substituída por ‘Objetos triangulares são objetosenformados’. Essa estratégia de substituição de termos abstratos foi inaugurada porOckham, “que defendeu que sentenças envolvendo muitos (mas não todos) termos abstratospodem ser tratadas desta maneira”. [67]Esta estratégia, porém, tem seus problemas. Considere a sentença ‘Marcella preferevermelho a azul’. Uma tradução nominalista poderia ser ‘Marcella prefere objetosvermelhos a objetos azuis’. Mas os sentidos das frases são diferentes. Marcella podepreferir vermelho, mas escolher um vestido azul, por causa de outras propriedades. [68]Assim, o nominalista austero teria que introduzir uma cláusula ceteris paribus, indicandoque todas as outras propriedades se manteriam iguais na paráfrase proposta. Teríamos,então, algo como: ‘Mantendo-se todo o resto igual, Marcella prefere objetos vermelhos aobjetos azuis’. Mesmo esta solução Loux considera problemática, pois não teríamos como
Page 12
12explicitar quais seriam todas essas outras propriedades que seriam mantidas constantes.[69] Os nominalistas austeros, porém, consideram que a vaguidão da cláusula ceterisparibus é uma virtude, e que nenhuma análise adicional é requerida. Consideremos agora um exemplo de referência abstrata que não inclui termossingulares abstratos (como ‘triangularidade’), mas termos gerais que seriam verdadeiros deuniversais, como ‘cor’: ‘Este tomate e este carro de bombeiro têm a mesma cor’. [70] Umasolução nominalista austera seria introduzir um advérbio como ‘colormente’ paracaracterizar a concordância que há entre os substantivos: ‘Este tomate e este carro debombeiro concordam colormente’. Essa estratégia torna-se difícil para sentenças maiscomplicadas, como ‘Aquela forma foi exemplificada muitas vezes’; Loux concede quesoluções podem sempre ser encontradas, mas elas se tornariam cada vez mais artificiais.Por outro lado, “revisionistas” como Quine (1960) consideram que se a tradução forproblemática, então o problema não está no nominalismo austero, mas nas crenças pré-filosóficas expressas pelas sentenças problemáticas. [71] Segundo o nominalista austerorevisionista, “uma ontologia com uma única categoria, que incorpora apenas particularesconcretos, é claramente preferível a uma barroca ontologia de duas categorias, comentidades altamente suspeitas que carecem de condições de identidade claras, com relaçõesmetafísicas bizarras e envolvendo potencialmente regressão ao infinito, e com explicaçõesde valor apenas dúbio”. Já o nominalista austero convencional aceita nossas crenças pré-filosóficas, e sepreocupa em obter traduções para todas as sentenças envolvendo referência abstrata.Porém, encontra uma série de problemas. Em troca de uma ontologia de categoria única, eletem que aceitar uma vastidão de coisas primitivas ou não-analisáveis: que as coisas sãovermelhas, que elas são triangulares, etc., além das cláusulas ceteris paribus. [72] E seutratamento da referência abstrata não segue um método uniforme, tendo que “se virar” acada novo tipo de sentença com referência abstrata. Já o realista trata desses problemastodos segundo uma abordagem simples e sistemática.Em suma, em termos ontológicos o nominalismo austero é mais simples que orealismo de universais, mas este é mais simples do que aquele no aspecto explicativo. [73]2.3. Nominalismo MetalingüísticoAlguns nominalistas consideram que é possível ter a simplicidade ontológica donominalismo austero e a simplicidade explicativa do realismo [de universais], no que serefere à referência abstrata. Sentenças como ‘triangularidade é uma forma’ não serefeririam a universais, nem a particulares do mundo, mas sim a expressões lingüísticas. Ouseja, sentenças que incluem referência abstrata são implicitamente metalingüísticas, epodem ser traduzidas de maneira a deixar explícito seu aspecto metalingüístico. [74]A origem desta concepção remonta a Roscelin de Compiègne, pensador do séc. XIIque foi talvez o primeiro nominalista reconhecido. Segundo ele, falar de universais seria, naverdade, falar sobre expressões lingüísticas que podem ser atribuídas predicativamente amuitos indivíduos. Assim, só nomes (nomina) que são termos gerais podem teruniversalidade, e é esta tese que explica porque a concepção de Roscelin veio a se chamar“nominalismo”. Para Roscelin, as expressões lingüísticas seriam meramente vocalizações,concepção esta que foi atacada por nominalistas posteriores como Abelardo (no seu LogicaIngredientibus), que salientou que seria preciso considerar que a linguagem tem significado
Page 13
13para dar conta de sua universalidade. Ockham concordava com Abelardo que só expressõeslingüísticas com significado poderiam ser universais, mas postulava a existência de umalinguagem do pensamento, onde ocorreriam os universais fundamentais. Mas mesmo nestecaso, Ockham concordava com Roscelin de que a universalidade é meramente umacapacidade de expressões lingüísticas de serem predicados de diferentes objetos. Notamosque o realista tradicional parte do universal para fornecer uma análise da predicação, aopasso que o nominalista medieval tomam a atividade de predicação como básica e autilizam para explicar o conceito de universal. [75]A versão mais sistemática e completa do nominalismo metalingüístico foi propostapor Wilfrid Sellars (1963). Ela parte do nominalismo metalingüístico proposto por RudolfCarnap (1959), que considerou sentenças que incorporam termos singulares abstratos comosendo do “modo pseudo material”, ou seja, fariam na verdade afirmações do “modoformal” ou metalingüístico. Por exemplo, as sentenças ‘coragem é uma propriedade’ e‘paternidade é uma relação’ seriam traduzidas por ‘“corajoso” é um adjetivo’ e ‘“pai de” éum predicado diádico’. [76] Um traço notável da abordagem de Carnap é seu caráter sistemático, que contrastacom a abordagem caso-a-caso dos nominalistas austeros. No entanto, seu relato recebeuvárias críticas, dentre as quais consideraremos duas. Primeiro, pode-se argumentar queCarnap não conseguiu eliminar toda referência a universais, pois quando usa uma paráfrasecomo ‘“corajoso” é um adjetivo’, está se referindo à palavra genérica ‘corajoso’, e não asuas instanciações particulares [quando eu falei ‘seja corajoso’ para meu filho no posto devacinação, ou quando ele me falou ‘seja corajoso’ na montanha russa]. Para esta distinção entre o termo genérico ‘corajoso’ e suas diferentes instanciações,Loux utiliza as expressões type e token [cuja tradução para o português é notoriamentedifícil]. [77] “Tokens são expressões lingüísticas entendidas como inscrições individuais oupronunciações.” Tokens são as emissões lingüísticas individuais, numericamente distintas,mas que podem ser tokens de uma mesma palavra, ‘corajoso’, entendido como um type. [M.Wrigley sugeriu traduzir token por “ocorrência”.] Claramente, “a relação entre um tipo eum token é a relação que liga um universal e suas instâncias: diferentes tokens de um únicotipo instanciam este tipo”. Assim, o fato de a teoria de Carnap se referir a expressões lingüísticas entendidascomo tipos o comprometeria à existência de universais (ou entidades multiplamenteinstanciáveis). Um segundo problema com a abordagem de Carnap é que a maneira comoele liga os termos singulares abstratos à linguagem restringe essa ligação a uma língua emparticular, como o inglês, e não permite uma tradução do termo abstrato para outra língua.Esses dois problemas, entre outros, foram abordados pelo nominalismometalingüístico de Wilfrid Sellars (1963). [78] Com relação ao primeiro problema, Sellarsestipulou que a palavra ‘corajoso’ não funciona como um termo geral (correspondente a umtipo ou universal), mas sim como um termo singular distributivo, que indicaria cadaocorrência particular da palavra ‘corajoso’. A distinção pode ser exemplificada na sentença‘O cidadão cingalês tem liberdade de expressão’. O termo ‘cidadão cingalês’ não se refere aum universal abstrato; afinal de contas, entidades abstratas não têm direitos políticos. Sãoos cidadãos individuais do Sri Lanka que têm direitos, como a liberdade de expressão. [79]Assim, Sellars parafrasearia a sentença ‘Coragem é uma virtude moral’ por: ‘O “corajoso”é um predicado de virtude’, onde a expressão ‘o “corajoso”’ é entendida como um termosingular distributivo.
Page 14
14Para resolver o segundo problema, Sellars introduz uma nova notação, as “aspaspontuais” [dot quotation], [80] que indica que a palavra ressaltada cobre qualquer traduçãodo termo em outras línguas. Assim, ao escrever •homem• , indica-se tanto ‘homem’,quanto ‘man’, ‘uomo’, ‘Mensch’, etc. A sentença vista anteriormente seria parafraseadapor: ‘O •corajoso• é um predicado de virtude’, ou ‘•Corajoso•s são predicados de virtude’.[81] Em seu notável trabalho de sistematização, Sellars introduziu outras distinçõesrelevantes, [82] como uma sofisticada teoria de quantificação metalingüística, que permitetraduzir sentenças como ‘Este tomate e aquele carro de bombeiro têm a mesma cor’. Desde a época de Ockham, os nominalistas vêm afirmando ser possível parafraseartodas as sentenças verdadeiras em termos rigorosamente nominalistas. No entanto, até ondeLoux sabe, Sellars foi o único a levar adiante este projeto em detalhes, “e seus esforçosresultaram em um dos trabalhos mais impressionantes da metafísica do século XX”.Mesmo assim, realistas como o próprio Loux (1978) têm tecido críticas ao trabalho deSellars. Argumenta-se que a teoria de Sellars não consegue tratar adequadamente desentenças como ‘O atributo mais freqüentemente associado a Sócrates é uma propriedade’.[83] Uma crítica mais geral envolve a questão de o que faz vários tokens serem associadosa um mesmo predicado trans-idiomático como •corajoso•. A resposta de Sellars é que todasessas ocorrências envolvem um mesmo “papel lingüístico” nas respectivas línguas, mas orecurso a tal papel não seria um compromisso com um universal? A resposta de Sellars aesta crítica é que falar em “papéis lingüísticos” é apenas um “modo de falar”, uma maneiraeconômica de se referir a fatos muito complexos a respeito de regras lingüísticas, que emúltima análise se reduzem a indivíduos humanos que falam e escrevem. [84]2.4. Teoria do TropoOs nominalistas austero e metalingüístico concordam que a única coisa que existesão particulares. Defensores da teoria do tropo [trope theory] sustentam que, além departiculares concretos, existem também atributos particulares. O vermelho de uma bolaexiste enquanto particular, mas não tem nada a ver com o vermelho de outro objeto. Assim,os atributos existem, mas não são entidades com exemplificação múltipla. Esta posição difere daquela que afirma que os atributos poderiam ter exemplificaçãomúltipla, mas que na verdade cada objeto tem uma cor ou forma levemente diferente deoutro, de tal forma que no mundo empírico a exemplificação múltipla não ocorre (apesar deela ser possível). Os nominalistas da teoria do tropo até aceitam que diferentes particularesconcretos podem ser semelhantes de maneira exata, mas mesmo quando isso ocorre, elestêm atributos numericamente diferentes. Não seria uma questão de impossibilidadeempírica, mas de um fato categorial sobre atributos. [85] A idéia de que os atributos de particulares concretos são também particulares éantiga. Alguns comentadores a atribuem a Aristóteles (Categorias 2, 1a20-1b9); comcerteza, Ockham a defendeu. (Loux nota que Ockham antecipou as três versões donominalismo expostas neste capítulo.) Os empiristas britânicos – Locke, Berkeley e Hume– parecem ter defendido semelhante posição. E no século XX, ele foi defendido por GeorgeF. Stout (1914), Donald C. Williams (1953) e Keith Campbell (1990). Segundo Williams,dois pirulitos “não ‘têm a mesma forma’ no mesmo sentido em que duas crianças ‘têm omesmo pai’”. [86]
Page 15
15Tais atributos eram chamados, na Idade Média, de “primeiros acidentes”, e noséculo XX, de “unidades de propriedade” [unit properties], “casos” e “aspectos”. Williamsintroduziu o termo “tropo” para designar atributos entendidos como particulares. [Outrosnomes dados para um tropo são: “instância de propriedade” (ou de relação), “particularabstrato”, “propriedade concreta”, “pedaço [bit] de qualidade”, “acidente individual” e“Momente” (em alemão). O infeliz termo “tropo” foi cunhado por Williams, meio quecomo uma piada filosófica. Santayana teria usado o termo “tropo” para a “essência de umaocorrência”, então Williams a utilizou para a “ocorrência de uma essência”. Fonte: StanfordEncyclopedia of Philosophy, na internet.] Por que um nominalista quereria popular a ontologia esparsa do nominalismoaustero com tropos? Se este nominalista considera que os objetos imediatos da percepçãosão cores, cheiros e formas, faz sentido considerá-los como particulares qualitativos.Mesmo quem nega esta tese sensacionista, porém, pode considerar que as qualidadessensoriais podem ser o objeto de nossa atenção seletiva. Posso me concentrar na cor rosa doTaj Mahal, e pensar não na rosidão em geral, mas naquela rosidão única que só o Taj Mahalpossui. [87]Em termos de número de categorias, pode-se pensar na teoria do tropo como tendoapenas uma categoria – particulares – ou duas – particulares concretos e abstratos. Locke eOckham tendiam a considerar duas ontologias, mas Williams reduzirá os particularesconcretos a “feixes” ou “aglomerados” de tropos, como veremos no cap. 3. A questão da concordância de atributos, entre particulares concretos, é explicada apartir da semelhança entre os respectivos tropos. Tal semelhança entre tropos, porém, nãoprecisaria ser explicada, segundo esta abordagem. Quanto à questão da predicação, duas posturas são possíveis. A posturaeliminativista [mencionada na seção 1.5] é compartilhada pelos nominalismos austero emetalingüístico, e consiste mostrar que um termo abstrato, como ‘sabedoria’, não se referea um universal mas sim, no caso da teoria dos tropos, aos vários tropos que são sabedorias.A ‘triangularidade’, do mesmo modo, se referiria a certos tropos de forma, aqueles que sãotriangularidades. Assim, os dispositivos de referência abstrata seriam elimináveis dodiscurso. [88] Ockham pode ser considerado um teórico do tropo que concorda com essaestratégia eliminativista. O “Doutor Invencível” propôs que “um discurso sobre o queparece ser universais na categoria aristotélica de qualidade pode ser analisado comoqualidades individuais”. No século XX, porém, uma segunda postura tem sido defendida por teóricos dotropo. Trata-se da tese de que um termo singular abstrato é um nome, não de um universal,mas de um conjunto de tropos semelhantes (Williams, 1953). Notemos que um conjuntonão é um universal, pois um conjunto tem condições de identidade nítidas, ao contrário deum universal. Ou seja, há uma resposta clara para a pergunta: quando é que dois conjuntosα e β são idênticos e quando são distintos? São idênticos quando compartilham os mesmoselementos. Mas dois universais diferentes não têm semelhante critério de identidade. [89] Sem o conceito de tropo, um nominalista austero não teria vantagem em associarum termo abstrato a um conjunto. Suponhamos que todo ser que tem um rim tem umcoração, e vice-versa: o conjunto que estaria associado ao predicado ‘ter rim’ seria idênticoao conjunto associado a ‘ter coração’, ou seja, esses dois predicados seriam considerados osmesmos! Com a introdução de tropos, este problema desaparece: o conjunto associado aopredicado ‘ter coração’ é o conjunto dos tropos ‘eu tenho coração’, ‘a perereca de meu
Page 16
16banheiro tem coração’, ‘Gandhi tem coração’, etc. Tal conjunto é claramente distinto de ‘eutenho rim’, ‘Gandhi tem rim’, etc. [90]Predicar um termo geral de uma coisa particular é dizer que o particular concretotem um tropo que pertence ao relevante conjunto de semelhança. A sentença em questão éverdadeira apenas quando, de fato, o particular concreto mencionado possui tal tropo.Temos assim uma teoria da predicação baseada na concepção de verdade porcorrespondência. [91]A teoria do tropo é mais aceitável para um realista do que as outras duas formas denominalismo, pois ela considera que termos singulares abstratos (como ‘coragem’ e‘triangularidade’) correspondam a entidades reais (apesar de diferentes de universais). Ateoria metalingüistica de Sellars, por outro lado, tem um aspecto implausível, segundoLoux, que é não fazer referência à realidade extra-lingüística, mas apenas à linguagem. Uma das críticas à teoria do tropo (Loux, 1978) é que seu critério de referência paratermos singulares abstratos falha quando o predicado associado não é satisfeito por nada.Por exemplo, os termos gerais ‘unicórnio’ ou ‘grifo’ estariam associados ao mesmoconjunto de tropos, que seria o conjunto vazio. [92] Mas ser um unicórnio é diferente de serum grifo! Um teórico do tropo poderia responder a esta objeção de maneira análoga a comoum realista aristotélico nega que existam universais não instanciados. Outra crítica (Wolterstorff, 1973) parte da noção de que o referente de ‘coragem’ seidentifica com um conjunto de tropos semelhantes. Mas tal conjunto é formado“necessariamente” pelos seus elementos, não podendo admitir um tropo adicional (senãoseria outro conjunto). [93] Mas é estranho ter que admitir que o conjunto de entidadescorajosas não poderia ser diferente! Uma saída seria invocar mundos possíveis, comoveremos no cap. 5. [94: Notas do capítulo] [95]
1 Metafísica – Uma Introdução Contemporânea Michael J. Loux (U. Notre Dame) Resumão (1a parte) de LOUX, M.J. (2002), Metaphysics – A Contemporary Introduction. 2a ed. Londres:Routledge. Confeccionado por Osvaldo Pessoa Jr. para a disciplina FLF0456, Teoria do Conhecimento eFilosofia da Ciência III, USP, 2006. O início aproximado de cada página do original está indicado entrecolchetes: [8], assim como quaisquer comentários adicionais. No original as seções não vêm numeradas. PREFÁCIOS [pp. xi-xiii]Seguindo a tradição de Aristóteles, metafísica é a teoria do ser enquanto ser(Aristóteles), a mais geral das disciplinas, a busca da natureza e estrutura de tudo o que há.Destaque é dado às categorias do ser, que são os gêneros mais gerais que se aplicam àscoisas. Há discordância quanto a quais são as categorias, quais suas propriedades e quaistêm mais prioridade. O livro de Loux começa examinando uma questão que está entre as mais antigas eimportantes, que é o debate dos universais. Nossa teoria metafísica deve incluir entre suascategorias básicas coisas que são comuns a diferentes objetos? Os realistas metafísicosafirmam que sim (cap. 1), enquanto os nominalistas defendem que não (cap. 2). A seguir,examinam-se a natureza e estrutura dos particulares concretos (cap. 3) e dos objetoscomplexos, associados a proposições, fatos, estados de coisas e eventos (cap. 4).Proposições estão sujeitas a modalidades, como o possível, o necessário, o impossível e ocontingente. A natureza da modalidade pode ser explicitada com a noção de “mundospossíveis” (cap. 5). A seguir, estuda-se a persistência no tempo dos objetos ordinários (cap.6). Por fim, apresenta-se o debate entre realistas e antirealistas, que toma a noção deverdade como foco central (cap. 6).0. INTRODUÇÃO0.1. A Natureza da Metafísica – Algumas Reflexões Históricas [2] O termo “metafísica” surgiu como título de uma coletânea de textos deAristóteles, escritos no séc. IV a.C. [O título só foi dado por Andrônico de Rodes no séc. Ia.C., “Ta Meta ta Phusika”, que significa “O que vem depois dos escritos sobre anatureza”.] Aristóteles chamava sua disciplina de “filosofia primeira” ou “teologia”. Emalguns trechos, afirma que seu objetivo é o conhecimento das causas primeiras. [3] Suameta é a apreensão da verdade, o que é compartilhado pela matemática e pela ciência. Masenquanto a ciência se volta para a natureza e estrutura das substâncias materiais, ametafísica estuda a substância imaterial. A causa primeira, para Aristóteles é Deus ou oMovente Imóvel.Aristóteles também define a metafísica como o estudo do “ser enquanto ser”.Assim, ela é uma ciência universal, que considera todos os objetos que há. Ou seja, elaenfoca os objetos das ciências particulares e da matemática, mas sob uma outra perspectiva,
Page 2
2aquela do ser enquanto ser, das coisas enquanto existentes. Central a este projeto está odelineamento das categorias fundamentais. [4] Aristóteles tinha consciência da tensão entreessas duas concepções da metafísica – busca das causas primeiras e estudo do ser enquantoser – mas argumentou que elas se identificariam. Esta concepção dupla da metafísica foi herdada pela Idade Média e também pelosracionalistas do continente europeu (sécs. XVII e XVIII), mas estes ampliaram o escopo dametafísica para incluir os fundamentos da física, a distinção entre seres vivos e inanimados,e o que é único no ser humano, [5] que envolve a relação entre mente e corpo, e a questãodo livre arbítrio. Para justificarem sua definição mais ampla de metafísica, os racionalistastomaram o objetivo da metafísica como sendo o estudo dos ser, em todas as suasperspectivas. Christian Wolff [1729] articulou esta distinção de maneira clara. Em primeirolugar, a “metafísica geral” estuda o ser enquanto ser; e dentre as metafísicas especiais,haveria a “cosmologia”, que estuda o ser enquanto coisa mutável, a “psicologia racional”,que estuda o ser de seres racionais como os humanos, e a “teologia natural”, que estuda oser de Deus. [6] Outra diferença entre a metafísica aristotélica e a dos racionalistas modernos éque a primeira era relativamente conservadora, próxima do senso comum, ao passo queracionalistas como Baruch Spinoza e Gottfried Leibniz montaram sistemas metafísicosbastante especulativos e contra-intuitivos. E foi justamente este caráter abstrato eespeculativo da metafísica que se tornou alvo da crítica dos empiristas britânicos (porexemplo, David Hume, 1739). Immanuel Kant também criticou o projeto metafísico,argumentando que não temos acesso direto às coisas em si, mas apenas ao conteúdosensorial estruturado pelo entendimento. [7] As teses que o metafísico deseja defendeririam além dos limites do conhecimento humano. Em lugar desta “metafísicatranscendente”, Kant defende uma “metafísica crítica”, cujo objetivo não é descrever umarealidade que transcende a experiência sensorial, mas o delineamento dos traços mais geraisde nosso pensamento e conhecimento. Este projeto de metafísica crítica foi retomado no séc. XX por Robin G.Collingwood (1940), Stephen Körner (1974), Nicholas Rescher (1973) e Hilary Putnam(1981, 1987). Peter Strawson (1959) inicia seu livro Individuals também defendendo que oobjeto da metafísica é a descrição de nossos esquemas conceituais, mas depois ele passa auma abordagem mais próxima do aristotelismo. Segundo esses autores, [8] a metafísicaseria um projeto “descritivo”, cujo objetivo é a caracterização de nosso quadro conceitual,do corpo de representações com a qual concebemos o mundo e dos seus princípiosreguladores. Dentro desta concepção de metafísica enquanto esquema conceitual, há os quevêem tais esquemas como imutáveis, e outros que os vêem como mudando com revoluçõescientíficas e culturais. Para estes, a tarefa da metafísica é comparativa: ela buscaria mostraras diferentes formas que entram em jogo nos diferentes esquemas que historicamentedesempenharam um papel em nossas tentativas de retratar o mundo. Já para os filósofos que tomam a metafísica no sentido pré-kantiano (quer sigam acautela aristotélica ou a especulação racionalista), a metafísica tem como objetivo adescrição da natureza e estrutura do mundo em si. O estudo de nossas estruturas conceituaisé diferente do estudo do mundo, mas o primeiro pode revelar traços do segundo, na medidaem que ele espelhe o mundo. [9] Por outro lado, há partidários dos esquemas conceituais que argumentam que éincoerente a própria idéia de um objeto separado e independente de esquemas conceituais.Tal posição é uma versão do que é chamado de idealismo, sendo defendida por Richard
Page 3
3Rorty (1979). [10] Os “esquematistas conceituais” mais moderados aceitam que a idéia deuma realidade independente é coerente, mas negam que ela possa ser conhecida: sóconhecemos nossos esquemas conceituais. Contra isso, alguns metafísicos tradicionais têmlevantado a objeção de que o esquematista, para ser consistente, teria que admitir que opróprio conhecimento dos esquemas conceituais é impossível, pois só conheceríamos osesquemas que representam tais esquemas! [11] Para o metafísico tradicional, nossos esquemas conceituais são justamente ocaminho para termos acesso às coisas em si. As teses metafísicas, porém, são falíveis,podem estar erradas. Essa discussão entre os tradicionais e os críticos faz parte da própriametafísica, sob o tópico “realismo versus antirealismo”, que debate a relação entrepensamento e mundo. 0.2. Metafísica enquanto Teoria das CategoriasAssumamos, para iniciar nossa discussão, uma postura realista, tradicional, pré-kantiana. [12] O estudo do “ser enquanto ser” faria parte da metafísica geral, ao passo que oestudo da causa primeira seria tema da teologia natural. Seguindo a classificação de Wolff,haveria ainda a cosmologia, que estudaria o mundo material e suas mudanças, e apsicologia racional, que se concentraria no problema mente-corpo e na questão do livrearbítrio. Loux escolheu se concentrar apenas na metafísica geral. Hoje em dia, tópicos deteologia natural são estudados em aulas de “filosofia da religião”, os de psicologia racionalem cursos de “filosofia da mente”, [13] sendo que a questão do livre-arbítrio é debatidaespecialmente na sub-área de “teoria da ação”. Na metafísica geral, o objetivo principal é a identificação e caracterização dascategorias sob as quais as coisas são classificadas. Tomemos um objeto familiar comoSócrates: o que é Sócrates? [14] É um filósofo, um homem, um mamífero, um animal, etc.Ele faz parte de classes cada vez mais gerais; a classe mais geral na qual se enquadraSócrates – antes da última que seria dizer que ele é um “ente”, um “ser”, uma “coisa”, um“existente” – seria a sua categoria, que para Aristóteles seria a categoria da substância.[Asdez categorias aristotélicas são: substância, qualidade, quantidade, relação, lugar, tempo,posição (sentado), estado (vestido), ação (escrever) e paixão (estar doente).] [15] As discussões em metafísica obviamente não se resumem a uma classificaçãode entidades em categorias. Tais discussões são tipicamente questões sobre “que objetosexistem?”. Tomemos o exemplo de cambalhotas: “cambalhota”, enquanto ente geral,existe? Um filósofo pode responder que sim, pois muitas pessoas dão cambalhotas, mas umoutro, reconhecendo que as pessoas de fato praticam o movimento que chamamos“cambalhota”, pode negar que exista uma classe especial de entes chamada “cambalhota”.[16] A discussão é sobre se nossa ontologia (a lista filosófica oficial sobre as coisas que há)deve incluir cambalhotas. Naturalmente não encontraremos filósofos discutindo seriamentea existência de cambalhotas, pois trata-se de um tópico muito específico. O que elesestariam discutindo é se eventos (como cambalhotas) devem fazer parte da ontologiafundamental do mundo, ou seja, se existe uma categoria de eventos.A discordância sobre categorias é pois uma discordância sobre o que existe. Existempropriedades? Relações? Eventos? Substâncias? Proposições? Estados de coisas? Mundospossíveis? [17] Por vezes, há um acordo sobre a existência de uma categoria, masdiscordância sobre se ela pode ser “reduzida” a outra categoria. Por exemplo, pode-se
Page 4
4aceitar a existência de entidades materiais, mas defender que elas são redutíveis àsqualidades sensoriais. O debate, então, gira em torno de quais seriam os elementosprimitivos ou básicos da ontologia, ou seja, se uma certa categoria seria primitiva ouderivada. 1. O PROBLEMA DOS UNIVERSAIS I – REALISMO METAFÍSICO1.1. Realismo e Nominalismo [21] A classificação que fazemos dos objetos do mundo reflete “semelhançasobjetivas” entre as coisas. Esta tese é um truísmo [obviedade] pré-filosófico, mas tem sidobastante discutida ao longo da história da filosofia. Haveria uma explicação geral para otruísmo de que as coisas podem concordar quanto aos seus atributos? Ou seja, haveriaalgum princípio (“tipo geral”, “forma de fato”) que garantiria a concordância de atributos,exemplificada por duas coisas que têm a mesma cor amarela?No Parmênides, Platão respondeu que sim: coisas semelhantes compartilhariam aForma. [22] Este ponto de vista tem sido aceito por muitos filósofos, como BertrandRussell (1912), Peter Strawson (1959) e David Armstrong (1989), apesar de exprimiremsuas idéias em terminologias diferentes. Ao invés de falarem em “coisas compartilhandouma Forma”, eles dizem que “coisas instanciam (exibem, exemplificam) uma únicapropriedade (qualidade, atributo)”. Tal posição é chamada de “realismo metafísico” [melhorseria “realismo de universais”, para não confundir com a tese, também chamada de“realismo metafísico”, de que o mundo tem uma realidade que independe do observador –confusão esta apontada por Loux na nota 4]. O realismo se opõe ao “nominalismo”. Conforme veremos no cap. 2, uma correntenominalista [teoria dos tropos] busca uma explicação diferente para a concordância dosatributos, que não faça referência a entidades compartilhadas; outra corrente [nominalismoaustero] defende que nenhuma explicação é necessária. 1.2. A Ontologia do Realismo MetafísicoOs realistas distinguem entre duas categorias de objetos: particulares e universais.[23] Um particular ocupa uma única posição espaço-temporal, ao passo que um universal éuma “entidade repetível”, distribuída, instanciada por diferentes particulares. Haveriauniversais monádicos (que se aplicam a um único particular) e haveria relações, queenvolvem dois ou mais particulares (ou seja, podem ser diádicos ou, para n objetos, “n-ádicos”). Um par de particulares “entra em” uma relação [ver p. 30].Os universais monádicos são usualmente chamados de “propriedades”, mas há osque fazem uma distinção entre propriedade, que é “possuída” pelo particular, [24] e gênero[kind], ao qual o particular “pertence”. Um gênero seria um “universal individuativo”, oque significa que os membros de um gênero são indivíduos, diferentes entre si, e diferentesdos indivíduos de outros gêneros. Há também “graus” de concordância entre atributos: umcão e um gato são ambos do gênero mamífero, mas não são tão próximos entre si quantoum beagle e um labrador.
Page 5
5Os universais, assim, vêm em hierarquias de generalidade, [25] levando a umaontologia bastante complexa. Mas, apesar de tal complexidade, tal teoria metafísica éfrutífera para explicar diversos fenômenos, como o “discurso de sujeito-predicado”[predicação] e a “referência abstrata”, conforme veremos a seguir.1.3. Realismo e PredicaçãoNa sentença ‘Sócrates é corajoso’, todos concordam que o objeto escolhido para sefazer referência é Sócrates. Os realistas (como Alan Donagan, 1963), porém, sustentamigualmente que o termo de predicado ‘corajoso’ também tem “força referencial”. [26] Orealismo adota a concepção de “verdade por correspondência”: ‘Sócrates’ corresponde aalgo, e ‘corajoso’ também teria que corresponder. Se agora considero a sentença ‘Platão écorajoso’, o termo ‘corajoso’ corresponderia à mesma entidade predicada na frase anterior(referente a Sócrates). [27] Mas qual é a natureza desta relação de correspondência? Qual “o gênero de relaçãoreferencial que liga predicados a propriedades, gêneros e relações”? [Notar nesta frase ouso dos termos ‘gênero’ e ‘relação’ em dois níveis metalingüísticos diferentes] [28] Alguns (como Gustav Bergmann, 1959) defendem que a relação que ospredicados têm com os universais é a mesma que um nome (como ‘Sócrates’) tem com ocorrespondente particular. Um exemplo dado é a sentença ‘Isto é vermelho’, que consisteda cópula de dois nomes, sendo que ‘vermelho’ corresponderia à cor da mesma maneiraque ‘isto’ corresponde a um objeto apontado. [29] Mas este exemplo se faz valer de umaambigüidade dos nomes das cores, que funcionam tanto como adjetivos quanto comosubstantivos. O exemplo não funcionaria tão bem para frases como ‘Isto é circular’, para asquais não é claro que adjetivo ‘circular’ corresponda a algum universal – apesar de osubstantivo ‘circularidade’ corresponder.Mesmo assim, muitos realistas defendem que um termo de predicado, além de serverdadeiro de um particular (ou satisfeito por um particular), também exprime ou conotaum universal. Na argumentação a favor desta tese, um ponto que é defendido é que “aplicarum termo de predicado a um objeto é mais do que meramente identificar o objeto comomembro de um conjunto de objetos”, mas é também “identificar o universal em virtude doqual os objetos pertencem ao conjunto”. Outro argumento é que uma frase como ‘Sócrates é corajoso’ pode ser parafraseadapor uma frase em que o universal fica explícito: ‘Sócrates exemplifica coragem’. [30] ‘Coragem’ aqui denotaria o universal coragem. Os realistas argumentam que tal paráfrasepode sempre ser aplicada, convertendo ‘a é F’ em ‘a exemplifica a F-idade’. Haveria entãouma relação referencial entre o predicado e o universal, que o realista chama de“expressão” ou “conotação”. Quando houver uma sentença de sujeito-predicado verdadeira,o universal expresso pelo predicado é exemplificado pelo referente do termo de sujeito dasentença. Para o realista, isso explica de maneira intuitiva como sentenças de sujeito-predicado podem corresponder ao mundo, [31] e isso em consonância com a noção de queo particular, ao qual o sujeito se refere, instancia a “concordância de atributos” estabelecidapelo predicado.
Page 6
61.4. Realismo e Referência AbstrataOutra vantagem do realismo metafísico seria dar uma explicação para o fenômenoda referência abstrata. Exemplos de um “termo singular abstrato” são: “triangularidade”,“sabedoria”, “humanidade” e “coragem”. Se sentenças como ‘triangularidade é uma forma’ou ‘a sabedoria é a meta da vida filosófica’ forem verdadeiras, [32] então os termossingulares abstratos devem estar servindo de nomes para os universais. Nesse caso, taissentenças só podem ser verdadeiras se os universais existirem. [33] Os realistas afirmamque só sua concepção consegue explicar porque algumas sentenças contendo um termosingular abstrato são verdadeiras. A mesma observação valeria para sentenças que não contêm tais termos, mas quefazem referência a universais, como ‘este tomate e esta carro de bombeiro têm a mesmacor’, onde o universal em questão é cor que os dois objetos compartilham. Este e o anteriorsão casos de referência abstrata. [34] Nota-se que essas afirmações são independentes da teoria realista de predicação,vista na seção anterior. Nota-se também que se houver uma teoria nominalista que expliquea predicação ou que dê conta da referência abstrata, então os argumentos realistas perdemsua força. Veremos que os nominalistas se esforçaram por vencer esse desafio. [35]1.5. Restrições no Realismo – ExemplificaçãoAlguns realistas não concordam com a tese de que qualquer termo geral ouconcordância de atributo corresponda a um universal específico, de forma que eles impõemrestrições à versão ilimitada do realismo de universais.Em primeiro lugar, notemos que uma versão irrestrita do realismo metafísico leva aum célebre paradoxo. Considere o termo geral ‘não exemplifica a si mesmo’ ou ‘não-auto-exemplificante’. [36] Ele se aplica a particulares como Alexandre Magno e ao número 2,mas não a universais como “incorporiedade” ou “a propriedade de ser idêntico com simesmo”. De acordo com um realismo irrestrito, seria uma propriedade. O paradoxo surgequando analisamos se “a propriedade de ser não-auto-exemplificante” (“p-ñAE”) é auto-exemplificante (AE) ou é não-auto-exemplificante (ñAE). Se “p-ñAE” for AE, então apropriedade de ser ñ-AE se aplica a “p-ñAE”, e ele é ñAE. Mas se “p-ñAE” for ñ-AE, entãonão é o caso que “p-ñAE” seja ñAE, ou seja, ele é AE. Mas aí voltamos à condição inicial,e o ciclo argumentativo prossegue ad infinitum! (Esta é a versão do “paradoxo de Russell”,da teoria dos conjuntos, aplicado a propriedades.) Para evitar o paradoxo, é preciso negarque haja um universal associado ao termo geral “não exemplifica a si mesmo”.Em segundo lugar, há um regresso ao infinito que foi apontado pela primeira vezpor Platão, no Parmênides (131e-132b). Segundo o esquema platônico para explicar aconcordância de atributos, se vários objetos são F, isso ocorre porque todos sãoexemplificações do universal F-dade. Porém, sendo assim, podemos dizer que esses váriosobjetos são “exemplificações de F-dade”, um atributo que é explicado pelo fato de todosserem exemplificações do universal “exemplificação de F-dade” [poderíamos teradicionado o sufixo -dade a esta expressão, se quiséssemos ressaltar a analogia]. [37] Masagora temos um novo atributo “exemplificação da exemplificação de F-dade”, que éexemplificado por todos, de forma que existiria um universal “exemplificação daexemplificação da exemplificação de F-dade”, ad infinitum. A conclusão é que se
Page 7
7quisermos aceitar o esquema explicativo de Platão, tal explicação nunca poderia sercompletada, pois haveria uma série infinita de universais exemplificados pelos objetos.Loux mostra como este mesmo problema afeta a teoria realista de predicação (visto naseção 1.3). [38]Alguns realistas resolvem esse problema negando que cada um dos universais dasérie infinita seja distinto: todos seriam versões do mesmo universal F-dade. Outros,porém, simplesmente constatam que um regresso ao infinito não é um círculo vicioso, deforma que ele pode ser tolerado. [39] Armstrong (1989) argumenta, inclusive, que aregressão na teoria da predicação afeta tanto nominalistas quanto realistas. Há uma terceira versão do argumento de regressão ao infinito que é consideradamais problemática para a maioria dos realistas. [40] Já vimos que se for o caso que ‘a é F’,então tanto a quanto a F-dade devem existir. Além disso, requer-se também que “aexemplifica a F-dade”, mas isso exprime uma relação entre a e F-dade. O realista defendeque relações também sejam universais, de tal forma que ele precisa postular uma espécie deexemplificação de 2a ordem para assegurar que a e a F-dade tenham a relação deexemplificação (de 1a ordem). Isso gera então uma regressão ao infinito. Este argumento éuma versão daquele dado por Francis Bradley (1930), cuja finalidade era mostrar que nãohá relações. [41] A solução mais aceita entre os realistas é que sua teoria não deve seaplicar à noção de exemplificação. Para justificar isso, alguns argumentam que aexemplificação não é uma relação, pois a exemplificação seria anterior a qualquer relação.Uma relação liga objetos justamente por meio de um elo de exemplificação, de maneira quea exemplificação seria antes um ligação ou nexo não-relacional (tie or nexus). Estaconclusão pode ser usada para dissolver as duas versões anteriores do argumento deregressão. [42]1.6. Restrições Adicionais – Predicados Definidos e Não-DefinidosAlguns realistas defendem restrições adicionais ao realismo de universais. Oprimeiro caso envolve predicados como ‘solteiro’. Segundo o realista, há um universalligado a ele. Mas este universal é uma propriedade que algo tem apenas no caso em que eletenha a propriedade de ser um Homo sapiens, de ser masculino e de ser descasado. Quantaspropriedades estariam envolvidas aqui? Além das três últimas citadas, seria necessáriotambém um quarto predicado, o de ser solteiro, ou não precisaríamos ser redundantes?Este tipo de preocupação se estenderia também para predicados como “descasado”.Não se poderia dizer que “descasado” é verdadeiro de algo apenas no caso em que lhe faltea propriedade correspondente a “casado”? Problemas desse tipo levaram alguns realistas, como Bergmann (1954) e Donagan(1963), a fazerem uma distinção entre predicados definidos e não-definidos [undefined]. Ospredicados não-definidos seriam primitivos, e estariam diretamente correlacionados comuniversais. Já os predicados definidos [no sentido, é claro, de terem uma definição, não nosentido de serem nítidos, exatos] a partir dos primitivos não corresponderiam a universais. [43] Um problema com esta distinção é que predicados não vêm com uma divisãonítida entre primitivos e definidos. Tal divisão dependeria de como a linguagem éformalizada, o que seria inaceitável para uma questão ontológica. Realistas de tendênciaempirista (do começo do séc. XX) propuseram que os predicados primitivos seriam aquelesque têm prioridade epistemológica, como os de cores, sons, cheiros, formas simples, etc.
Page 8
8Esta proposta não é hoje muito aceita por causa da dificuldade de reduzir predicados daciência teórica, da ética etc., a predicados perceptuais. [44]Há outro problema, apontado por Ludwig Wittgenstein (1953), de que nem sempreé possível definir um predicado (como “jogo”) em termos de predicados mais simples, deforma a fornecer condições necessárias e suficientes para se definir o predicado complexo.[45] Autores que levam a sério esta objeção, como Loux (1978), são holistas a respeito deuniversais, ou seja, rejeitam a redução de um conjunto de universais a outro. Assim,terminam por aceitar que universais associados a ‘solteiro’ ou ‘descasado’ sejam tão reaisquanto o associado a ‘vermelho’. Com relação à sugestão de Wittgenstein, de que seriaimpossível identificar um universal associado ao termo ‘jogo’, retrucam que tal universalseria simplesmente a propriedade jogo. Realistas como Armstrong (1989) concordam com os empiristas que se deverestringir os predicados interessantes, mas discordam que os predicados interessantes sejamos perceptuais e que se deva tentar traduzir ou definir todos os outros predicados em funçãodestes primitivos. Esses realistas também acusam os holistas ou antireducionistas deapriorismo, ou seja, a visão de que podemos determinar quais são os universais apenasrefletindo sobre a estrutura da linguagem. [46] Para esses realistas, a questão de quaisuniversais existem é uma questão empírica que deve ser resolvida pela investigaçãocientífica. Esta posição é chamada de realismo científico. Em última instância, seriam ospredicados da física que teriam força ontológica. Mas, neste caso, o que dizer dos predicados que não fazem parte das teorias físicas?Uma abordagem menos radical aceita que haja predicados e termos abstratos que não fazemparte da física, mas ela dá prioridade ontológica para propriedades, gêneros e relações dafísica. A relação entre predicados não-físicos e os físicos não seria de redução: aqueles nãopoderiam ser analisados em termos destes. Mas os predicados físicos determinariam oufixariam ontologicamente os não-físicos. Em outras palavras, universais não-físicos seriamsupervenientes em relação aos universais físicos (Jaegwon Kim, 1993). A segunda abordagem, mais radical, é a dos eliminativistas, que negam quepredicados sem base na física tenham força ontológica (Paul Churchland, 1990). [47] Nossamelhor teoria da natureza do mundo é aquela delineada pela física madura; assim, “namedida em que nosso relato não-científico do mundo é incompatível com a física madura,ele é falso.” 1.6. Há Atributos Não-Exemplificados?A questão mais importante que divide os realistas é a idéia de universais não-exemplificados, ou seja, a idéia de que haja universais que não são, nunca foram e nuncaserão instanciados em um particular. Esta ausência de instâncias pode ser contingente,como no caso de formas complicadas de objetos físicos: tais objetos poderiam ter uma certaforma complicada, mas de fato não têm. Ou, conforme alguns argumentam, esta não-exemplificação pode ser necessária, como no caso de um quadrado circular. Há algumaevidência de que Platão (Fédon 73a-81a, República, 507b-507c) acreditava em universaisnão-exemplificados. E é plausível supor [48] que Aristóteles aceitava apenas universaisexemplificados, ao escrever que se tudo fosse branco, a cor preta não existiria (Categorias,11, 14a8-10). Armstrong (1989) também defende esta posição. Loux chama então essasduas posições de “realismo platônico” e “realismo aristotélico”.
Page 9
9Os aristotélicos consideram que propriedades, gêneros e relações precisam estarancorados no mundo espaço-temporal. Eles discordam da “ontologia de dois mundos” dePlatão, que separa universais de um lado e particulares do outro, e que para explicar comonós temos acesso aos universais, diz que este conhecimento é inato, a priori. Osaristotélicos tendem a negar o conhecimento inato, supondo que nosso conhecimento dosuniversais advém da observação empírica do mundo. Para eles, conhecemos os particularesapenas porque conhecemos seus gêneros, suas propriedades e suas relações; e conseguimosconhecer gêneros, propriedades e relações [49] através do contato epistêmico com osparticulares que os exemplificam.Já os platonistas argumentam que as mesmas considerações semânticas que noslevam a propor universais exemplificados também nos levariam a universais não-exemplificados. Suponha que uma pessoa P enuncie uma proposição, como ‘a é F’, queseja falsa. P afirmou alguma coisa, mas o quê? Ora, o significado do que P enunciou nãopode depender da veracidade ou falsidade da proposição. Assim, P assevera, falsamente,que a exemplifica a F-dade, de forma que este universal existe, mesmo que nenhumparticular jamais o exemplifique. Para os platonistas, todos os universais são seres necessários, ao contrário dosparticulares, que seriam contingentes. [50] A existência de uma propriedade, gênero ourelação seria necessária, mas sua exemplificação ou instanciação seria contingente. Muitos platonistas negam que seja preciso adotar a ontologia dos dois mundos, poiso nexo da exemplificação amarra os dois mundos (dos universais e dos particulares). Paraestes, os universais exemplificados podem ser conhecidos pela observação empírica; já osuniversais não-exemplificados são obtidos por extrapolação. [51: Notas do capítulo] [52][53] [54]2 O PROBLEMA DOS UNIVERSAIS II– NOMINALISMO2.1. A Motivação para o NominalismoO nominalista nega que haja universais. Há razões diferentes para esta recusa. [55] (i) Um primeiro foco de ataque é a noção de exemplificação múltipla. “De acordocom o nominalista, a afirmação de que particulares numericamente diferentes exemplificamum e o mesmo universal leva a incoerência” (este argumento aparece em Platão: Filebo15b, Parmênides 131a-e). Não seria possível que diferentes particulares, localizados emregiões espaciais desconexas, exemplificassem o mesmo universal – argumenta onominalista – pois senão teríamos que admitir que uma mesma propriedade, por exemplo“vermelho”, está a 15 km de si mesma, o que seria falso.(ii) Uma segunda objeção geral do nominalista é que “é impossível fornecer umrelato não-circular das condições de identidade de coisas como propriedades, gêneros erelações” (este ponto foi salientado por Willard Quine, 1960). Segundo este argumento, sópodemos introduzir um gênero de objeto em nossa ontologia se pudermos fornecer umadescrição de quando temos um e o mesmo objeto daquele gênero e quando temos umnúmero diferente de tais objetos. No caso dos universais, isso não pode ser feito porreferência aos particulares que os exemplificam, pois claramente dois universais diferentes(homem e bípede implume) podem ser instanciados pelo mesmo conjunto de particulares.[Uma exceção seria o universal “conjunto”, cuja condição de identidade é não-circular; dois
Page 10
10conjuntos seriam idênticos se compartilharem todos seus elementos, ver p. 57.] O quedistingue universais não é sua extensão (conjunto de instanciações), mas seu conteúdo. [56]Para explicar qual a diferença de conteúdo entre dois universais, precisamos introduziroutros universais, mas esta estratégia só funcionaria se estes forem de antemãonumericamente distintos. (iii) Uma terceira linha de ataque envolve as questões examinadas no capítuloanterior. Afirma-se que o realismo metafísico [de universais] seria necessariamenteregressivo, ou seja, envolveria uma regressão viciosa ao infinito. (iv) Um quarto argumento,epistemológico, é que o realismo não conseguiria explicar como nós, enraizados no mundoconcreto dos particulares, poderíamos conhecer entidades abstratas como propriedades,gêneros e relações.Cada uma das quatro objeções mencionadas acima não tem força, individualmente,para derrubar o realismo metafísico. O primeiro argumento, por exemplo, supõe que umuniversal deve ser associado a uma localização espaço-temporal, mas realistas comoRussell (1912) negam isso. [57] Mesmo aqueles realistas que supõem que um universaltenha uma localização espacial (Donagan, 1963) negam que uma entidade única não possaocupar regiões espaciais desconexas. Alguns nominalistas, como David Lewis (1983),aceitam esta defesa realista: “por ocorrerem repetidamente, universais desafiam princípiosintuitivos; mas esta objeção não é danosa, pois, em linguagem simples, as intuições foramfeitas para os particulares”.Com relação à segunda objeção, alguns realistas procuraram elaborar condiçõessatisfatórias de identidade para universais, ao passo que outros consideram que a exigêncianominalista não é apropriada (Loux, 1978). [58] Nesta linha, argumenta-se que mesmo acondição de identidade de particulares é circular, já que depende de localizações espaço-temporais, que por seu turno dependeriam de particulares. Loux considera que a motivaçãocentral que move os nominalistas também não é esta segunda objeção. A terceira objeção critica a conclusão realista de que a exemplificação é umaligação ou nexo, e não uma relação. Os nominalistas consideram esta solução ad hoc ouentão artificial, mas não uma razão suficiente para julgar que o realismo foi refutado. Aquarta objeção também não tem muita força, por si só. Assim, a origem do nominalismo não é nenhum argumento contra a posição dorealismo metafísico [de universais]. Sua origem estaria, segundo Loux, em uma certaconcepção da empreitada metafísica. Em analogia com a construção de teorias científicas,[60] na construção de teorias metafísicas um papel central é desempenhado pelo princípiode simplicidade ou parsimônia, que diz o seguinte: “dadas duas teorias com igual poderexplicativo, é preferível a teoria que postula um número menor de distintos tiposirredutíveis de entidades”. Segundo este ponto de vista, o problema do realismo metafísicoé que sua ontologia postula duas categorias irredutíveis: particulares e universais. Mas,segundo o nominalista, todo o trabalho do realismo pode ser realizado com apenas umacategoria: os particulares. A origem desta concepção está na filosofia do maior nominalista medieval,Guilherme [William] de Ockham. A primeira vítima de seu princípio de simplicidade –conhecido posteriormente como “navalha de Ockham” – foram justamente os universais,enquanto entidades não-lingüísticas.
Page 11
112.2. Nominalismo Austero[61] Os nominalistas argumentam que uma teoria metafísica que postula somenteparticulares explica tanto quanto o realismo metafísico, dando conta dos fenômenos daconcordância de atributos, predicação e referência abstrata. No entanto, não existe umaúnica teoria nominalista básica, como ocorre no caso do realismo metafísico, pois osparticulares que são propostos nas diferentes teorias nominalistas são de tipo bemdiferentes. Loux exemplifica essa variedade com três metafísicas nominalistas diferentes: onominalismo austero, o nominalismo metalingüístico e a teoria do tropo. Para o nominalismo austero, só existem particulares. A questão de quais são osparticulares é sujeita a debate: pode incluir objetos cotidianos, ou no caso de um realistacientífico eliminativista, pode incluir apenas as partículas elementares da física. [62] De qualquer forma, o nominalismo austero lida com o fenômeno da concordância deatributos como sendo um aspecto fundamental e não analisável do mundo (Quine, 1948).Ou seja, é um fato básico irredutível que objetos diferentes concordam em atributos, comoserem amarelos, corajosos ou triangulares. O realista metafísico também parte de um fatofundamental, a existência de universais (como a triangularidade). O nominalista austero,porém, propõe que este conceito de primitivo ou fundamental seja invocado um passoantes, tomando como fundamental o fato de que certas coisas são triangulares. O nominalista austero argumenta também (Pears, 1951) que o uso legítimo deuniversais para explicar a concordância de atributos necessitaria de uma definiçãoindependente de universais. Senão, cair-se-ia numa pseudo-explicação, como aquela queexplica o sono pela “virtus dormitiva”. [63]Os nominalistas austeros também apresentam uma teoria da verdade para apredicação, partindo de alguns pontos em comum com o realista, como a aceitação daconcepção de verdade por correspondência. Segundo eles, o que torna verdadeira umasentença da forma ‘a é F’ é justamente que a é F (Quine, 1948; Price, 1953; Sellars, 1963).[64] A correspondência entre a linguagem e o mundo se fundamenta em dois conceitosreferenciais: a nomeação [ou denotação] (‘Sócrates’ denota Sócrates) e a satisfação(‘corajoso’ é satisfeito por certas coisas, incluindo Sócrates). [65]Com relação a sentenças com referência abstrata, os nominalistas austeros mantêmsua estratégia de interpretar termos que aparentemente conotam universais como maneirasdisfarçadas de referir a particulares concretos. Como exemplo inicial de paráfrasenominalista austera, a sentença ‘Sócrates exemplifica coragem’ seria na verdade ‘Sócrates écorajoso’. [66] Uma sentença envolvendo um termo singular abstrato, como ‘Atriangularidade é uma forma’, é substituída por ‘Objetos triangulares são objetosenformados’. Essa estratégia de substituição de termos abstratos foi inaugurada porOckham, “que defendeu que sentenças envolvendo muitos (mas não todos) termos abstratospodem ser tratadas desta maneira”. [67]Esta estratégia, porém, tem seus problemas. Considere a sentença ‘Marcella preferevermelho a azul’. Uma tradução nominalista poderia ser ‘Marcella prefere objetosvermelhos a objetos azuis’. Mas os sentidos das frases são diferentes. Marcella podepreferir vermelho, mas escolher um vestido azul, por causa de outras propriedades. [68]Assim, o nominalista austero teria que introduzir uma cláusula ceteris paribus, indicandoque todas as outras propriedades se manteriam iguais na paráfrase proposta. Teríamos,então, algo como: ‘Mantendo-se todo o resto igual, Marcella prefere objetos vermelhos aobjetos azuis’. Mesmo esta solução Loux considera problemática, pois não teríamos como
Page 12
12explicitar quais seriam todas essas outras propriedades que seriam mantidas constantes.[69] Os nominalistas austeros, porém, consideram que a vaguidão da cláusula ceterisparibus é uma virtude, e que nenhuma análise adicional é requerida. Consideremos agora um exemplo de referência abstrata que não inclui termossingulares abstratos (como ‘triangularidade’), mas termos gerais que seriam verdadeiros deuniversais, como ‘cor’: ‘Este tomate e este carro de bombeiro têm a mesma cor’. [70] Umasolução nominalista austera seria introduzir um advérbio como ‘colormente’ paracaracterizar a concordância que há entre os substantivos: ‘Este tomate e este carro debombeiro concordam colormente’. Essa estratégia torna-se difícil para sentenças maiscomplicadas, como ‘Aquela forma foi exemplificada muitas vezes’; Loux concede quesoluções podem sempre ser encontradas, mas elas se tornariam cada vez mais artificiais.Por outro lado, “revisionistas” como Quine (1960) consideram que se a tradução forproblemática, então o problema não está no nominalismo austero, mas nas crenças pré-filosóficas expressas pelas sentenças problemáticas. [71] Segundo o nominalista austerorevisionista, “uma ontologia com uma única categoria, que incorpora apenas particularesconcretos, é claramente preferível a uma barroca ontologia de duas categorias, comentidades altamente suspeitas que carecem de condições de identidade claras, com relaçõesmetafísicas bizarras e envolvendo potencialmente regressão ao infinito, e com explicaçõesde valor apenas dúbio”. Já o nominalista austero convencional aceita nossas crenças pré-filosóficas, e sepreocupa em obter traduções para todas as sentenças envolvendo referência abstrata.Porém, encontra uma série de problemas. Em troca de uma ontologia de categoria única, eletem que aceitar uma vastidão de coisas primitivas ou não-analisáveis: que as coisas sãovermelhas, que elas são triangulares, etc., além das cláusulas ceteris paribus. [72] E seutratamento da referência abstrata não segue um método uniforme, tendo que “se virar” acada novo tipo de sentença com referência abstrata. Já o realista trata desses problemastodos segundo uma abordagem simples e sistemática.Em suma, em termos ontológicos o nominalismo austero é mais simples que orealismo de universais, mas este é mais simples do que aquele no aspecto explicativo. [73]2.3. Nominalismo MetalingüísticoAlguns nominalistas consideram que é possível ter a simplicidade ontológica donominalismo austero e a simplicidade explicativa do realismo [de universais], no que serefere à referência abstrata. Sentenças como ‘triangularidade é uma forma’ não serefeririam a universais, nem a particulares do mundo, mas sim a expressões lingüísticas. Ouseja, sentenças que incluem referência abstrata são implicitamente metalingüísticas, epodem ser traduzidas de maneira a deixar explícito seu aspecto metalingüístico. [74]A origem desta concepção remonta a Roscelin de Compiègne, pensador do séc. XIIque foi talvez o primeiro nominalista reconhecido. Segundo ele, falar de universais seria, naverdade, falar sobre expressões lingüísticas que podem ser atribuídas predicativamente amuitos indivíduos. Assim, só nomes (nomina) que são termos gerais podem teruniversalidade, e é esta tese que explica porque a concepção de Roscelin veio a se chamar“nominalismo”. Para Roscelin, as expressões lingüísticas seriam meramente vocalizações,concepção esta que foi atacada por nominalistas posteriores como Abelardo (no seu LogicaIngredientibus), que salientou que seria preciso considerar que a linguagem tem significado
Page 13
13para dar conta de sua universalidade. Ockham concordava com Abelardo que só expressõeslingüísticas com significado poderiam ser universais, mas postulava a existência de umalinguagem do pensamento, onde ocorreriam os universais fundamentais. Mas mesmo nestecaso, Ockham concordava com Roscelin de que a universalidade é meramente umacapacidade de expressões lingüísticas de serem predicados de diferentes objetos. Notamosque o realista tradicional parte do universal para fornecer uma análise da predicação, aopasso que o nominalista medieval tomam a atividade de predicação como básica e autilizam para explicar o conceito de universal. [75]A versão mais sistemática e completa do nominalismo metalingüístico foi propostapor Wilfrid Sellars (1963). Ela parte do nominalismo metalingüístico proposto por RudolfCarnap (1959), que considerou sentenças que incorporam termos singulares abstratos comosendo do “modo pseudo material”, ou seja, fariam na verdade afirmações do “modoformal” ou metalingüístico. Por exemplo, as sentenças ‘coragem é uma propriedade’ e‘paternidade é uma relação’ seriam traduzidas por ‘“corajoso” é um adjetivo’ e ‘“pai de” éum predicado diádico’. [76] Um traço notável da abordagem de Carnap é seu caráter sistemático, que contrastacom a abordagem caso-a-caso dos nominalistas austeros. No entanto, seu relato recebeuvárias críticas, dentre as quais consideraremos duas. Primeiro, pode-se argumentar queCarnap não conseguiu eliminar toda referência a universais, pois quando usa uma paráfrasecomo ‘“corajoso” é um adjetivo’, está se referindo à palavra genérica ‘corajoso’, e não asuas instanciações particulares [quando eu falei ‘seja corajoso’ para meu filho no posto devacinação, ou quando ele me falou ‘seja corajoso’ na montanha russa]. Para esta distinção entre o termo genérico ‘corajoso’ e suas diferentes instanciações,Loux utiliza as expressões type e token [cuja tradução para o português é notoriamentedifícil]. [77] “Tokens são expressões lingüísticas entendidas como inscrições individuais oupronunciações.” Tokens são as emissões lingüísticas individuais, numericamente distintas,mas que podem ser tokens de uma mesma palavra, ‘corajoso’, entendido como um type. [M.Wrigley sugeriu traduzir token por “ocorrência”.] Claramente, “a relação entre um tipo eum token é a relação que liga um universal e suas instâncias: diferentes tokens de um únicotipo instanciam este tipo”. Assim, o fato de a teoria de Carnap se referir a expressões lingüísticas entendidascomo tipos o comprometeria à existência de universais (ou entidades multiplamenteinstanciáveis). Um segundo problema com a abordagem de Carnap é que a maneira comoele liga os termos singulares abstratos à linguagem restringe essa ligação a uma língua emparticular, como o inglês, e não permite uma tradução do termo abstrato para outra língua.Esses dois problemas, entre outros, foram abordados pelo nominalismometalingüístico de Wilfrid Sellars (1963). [78] Com relação ao primeiro problema, Sellarsestipulou que a palavra ‘corajoso’ não funciona como um termo geral (correspondente a umtipo ou universal), mas sim como um termo singular distributivo, que indicaria cadaocorrência particular da palavra ‘corajoso’. A distinção pode ser exemplificada na sentença‘O cidadão cingalês tem liberdade de expressão’. O termo ‘cidadão cingalês’ não se refere aum universal abstrato; afinal de contas, entidades abstratas não têm direitos políticos. Sãoos cidadãos individuais do Sri Lanka que têm direitos, como a liberdade de expressão. [79]Assim, Sellars parafrasearia a sentença ‘Coragem é uma virtude moral’ por: ‘O “corajoso”é um predicado de virtude’, onde a expressão ‘o “corajoso”’ é entendida como um termosingular distributivo.
Page 14
14Para resolver o segundo problema, Sellars introduz uma nova notação, as “aspaspontuais” [dot quotation], [80] que indica que a palavra ressaltada cobre qualquer traduçãodo termo em outras línguas. Assim, ao escrever •homem• , indica-se tanto ‘homem’,quanto ‘man’, ‘uomo’, ‘Mensch’, etc. A sentença vista anteriormente seria parafraseadapor: ‘O •corajoso• é um predicado de virtude’, ou ‘•Corajoso•s são predicados de virtude’.[81] Em seu notável trabalho de sistematização, Sellars introduziu outras distinçõesrelevantes, [82] como uma sofisticada teoria de quantificação metalingüística, que permitetraduzir sentenças como ‘Este tomate e aquele carro de bombeiro têm a mesma cor’. Desde a época de Ockham, os nominalistas vêm afirmando ser possível parafraseartodas as sentenças verdadeiras em termos rigorosamente nominalistas. No entanto, até ondeLoux sabe, Sellars foi o único a levar adiante este projeto em detalhes, “e seus esforçosresultaram em um dos trabalhos mais impressionantes da metafísica do século XX”.Mesmo assim, realistas como o próprio Loux (1978) têm tecido críticas ao trabalho deSellars. Argumenta-se que a teoria de Sellars não consegue tratar adequadamente desentenças como ‘O atributo mais freqüentemente associado a Sócrates é uma propriedade’.[83] Uma crítica mais geral envolve a questão de o que faz vários tokens serem associadosa um mesmo predicado trans-idiomático como •corajoso•. A resposta de Sellars é que todasessas ocorrências envolvem um mesmo “papel lingüístico” nas respectivas línguas, mas orecurso a tal papel não seria um compromisso com um universal? A resposta de Sellars aesta crítica é que falar em “papéis lingüísticos” é apenas um “modo de falar”, uma maneiraeconômica de se referir a fatos muito complexos a respeito de regras lingüísticas, que emúltima análise se reduzem a indivíduos humanos que falam e escrevem. [84]2.4. Teoria do TropoOs nominalistas austero e metalingüístico concordam que a única coisa que existesão particulares. Defensores da teoria do tropo [trope theory] sustentam que, além departiculares concretos, existem também atributos particulares. O vermelho de uma bolaexiste enquanto particular, mas não tem nada a ver com o vermelho de outro objeto. Assim,os atributos existem, mas não são entidades com exemplificação múltipla. Esta posição difere daquela que afirma que os atributos poderiam ter exemplificaçãomúltipla, mas que na verdade cada objeto tem uma cor ou forma levemente diferente deoutro, de tal forma que no mundo empírico a exemplificação múltipla não ocorre (apesar deela ser possível). Os nominalistas da teoria do tropo até aceitam que diferentes particularesconcretos podem ser semelhantes de maneira exata, mas mesmo quando isso ocorre, elestêm atributos numericamente diferentes. Não seria uma questão de impossibilidadeempírica, mas de um fato categorial sobre atributos. [85] A idéia de que os atributos de particulares concretos são também particulares éantiga. Alguns comentadores a atribuem a Aristóteles (Categorias 2, 1a20-1b9); comcerteza, Ockham a defendeu. (Loux nota que Ockham antecipou as três versões donominalismo expostas neste capítulo.) Os empiristas britânicos – Locke, Berkeley e Hume– parecem ter defendido semelhante posição. E no século XX, ele foi defendido por GeorgeF. Stout (1914), Donald C. Williams (1953) e Keith Campbell (1990). Segundo Williams,dois pirulitos “não ‘têm a mesma forma’ no mesmo sentido em que duas crianças ‘têm omesmo pai’”. [86]
Page 15
15Tais atributos eram chamados, na Idade Média, de “primeiros acidentes”, e noséculo XX, de “unidades de propriedade” [unit properties], “casos” e “aspectos”. Williamsintroduziu o termo “tropo” para designar atributos entendidos como particulares. [Outrosnomes dados para um tropo são: “instância de propriedade” (ou de relação), “particularabstrato”, “propriedade concreta”, “pedaço [bit] de qualidade”, “acidente individual” e“Momente” (em alemão). O infeliz termo “tropo” foi cunhado por Williams, meio quecomo uma piada filosófica. Santayana teria usado o termo “tropo” para a “essência de umaocorrência”, então Williams a utilizou para a “ocorrência de uma essência”. Fonte: StanfordEncyclopedia of Philosophy, na internet.] Por que um nominalista quereria popular a ontologia esparsa do nominalismoaustero com tropos? Se este nominalista considera que os objetos imediatos da percepçãosão cores, cheiros e formas, faz sentido considerá-los como particulares qualitativos.Mesmo quem nega esta tese sensacionista, porém, pode considerar que as qualidadessensoriais podem ser o objeto de nossa atenção seletiva. Posso me concentrar na cor rosa doTaj Mahal, e pensar não na rosidão em geral, mas naquela rosidão única que só o Taj Mahalpossui. [87]Em termos de número de categorias, pode-se pensar na teoria do tropo como tendoapenas uma categoria – particulares – ou duas – particulares concretos e abstratos. Locke eOckham tendiam a considerar duas ontologias, mas Williams reduzirá os particularesconcretos a “feixes” ou “aglomerados” de tropos, como veremos no cap. 3. A questão da concordância de atributos, entre particulares concretos, é explicada apartir da semelhança entre os respectivos tropos. Tal semelhança entre tropos, porém, nãoprecisaria ser explicada, segundo esta abordagem. Quanto à questão da predicação, duas posturas são possíveis. A posturaeliminativista [mencionada na seção 1.5] é compartilhada pelos nominalismos austero emetalingüístico, e consiste mostrar que um termo abstrato, como ‘sabedoria’, não se referea um universal mas sim, no caso da teoria dos tropos, aos vários tropos que são sabedorias.A ‘triangularidade’, do mesmo modo, se referiria a certos tropos de forma, aqueles que sãotriangularidades. Assim, os dispositivos de referência abstrata seriam elimináveis dodiscurso. [88] Ockham pode ser considerado um teórico do tropo que concorda com essaestratégia eliminativista. O “Doutor Invencível” propôs que “um discurso sobre o queparece ser universais na categoria aristotélica de qualidade pode ser analisado comoqualidades individuais”. No século XX, porém, uma segunda postura tem sido defendida por teóricos dotropo. Trata-se da tese de que um termo singular abstrato é um nome, não de um universal,mas de um conjunto de tropos semelhantes (Williams, 1953). Notemos que um conjuntonão é um universal, pois um conjunto tem condições de identidade nítidas, ao contrário deum universal. Ou seja, há uma resposta clara para a pergunta: quando é que dois conjuntosα e β são idênticos e quando são distintos? São idênticos quando compartilham os mesmoselementos. Mas dois universais diferentes não têm semelhante critério de identidade. [89] Sem o conceito de tropo, um nominalista austero não teria vantagem em associarum termo abstrato a um conjunto. Suponhamos que todo ser que tem um rim tem umcoração, e vice-versa: o conjunto que estaria associado ao predicado ‘ter rim’ seria idênticoao conjunto associado a ‘ter coração’, ou seja, esses dois predicados seriam considerados osmesmos! Com a introdução de tropos, este problema desaparece: o conjunto associado aopredicado ‘ter coração’ é o conjunto dos tropos ‘eu tenho coração’, ‘a perereca de meu
Page 16
16banheiro tem coração’, ‘Gandhi tem coração’, etc. Tal conjunto é claramente distinto de ‘eutenho rim’, ‘Gandhi tem rim’, etc. [90]Predicar um termo geral de uma coisa particular é dizer que o particular concretotem um tropo que pertence ao relevante conjunto de semelhança. A sentença em questão éverdadeira apenas quando, de fato, o particular concreto mencionado possui tal tropo.Temos assim uma teoria da predicação baseada na concepção de verdade porcorrespondência. [91]A teoria do tropo é mais aceitável para um realista do que as outras duas formas denominalismo, pois ela considera que termos singulares abstratos (como ‘coragem’ e‘triangularidade’) correspondam a entidades reais (apesar de diferentes de universais). Ateoria metalingüistica de Sellars, por outro lado, tem um aspecto implausível, segundoLoux, que é não fazer referência à realidade extra-lingüística, mas apenas à linguagem. Uma das críticas à teoria do tropo (Loux, 1978) é que seu critério de referência paratermos singulares abstratos falha quando o predicado associado não é satisfeito por nada.Por exemplo, os termos gerais ‘unicórnio’ ou ‘grifo’ estariam associados ao mesmoconjunto de tropos, que seria o conjunto vazio. [92] Mas ser um unicórnio é diferente de serum grifo! Um teórico do tropo poderia responder a esta objeção de maneira análoga a comoum realista aristotélico nega que existam universais não instanciados. Outra crítica (Wolterstorff, 1973) parte da noção de que o referente de ‘coragem’ seidentifica com um conjunto de tropos semelhantes. Mas tal conjunto é formado“necessariamente” pelos seus elementos, não podendo admitir um tropo adicional (senãoseria outro conjunto). [93] Mas é estranho ter que admitir que o conjunto de entidadescorajosas não poderia ser diferente! Uma saída seria invocar mundos possíveis, comoveremos no cap. 5. [94: Notas do capítulo] [95]
