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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828140 KUHN: UM NATURALISTA ACIDENTAL1Jézio Hernani Bomfim GutierreFaculdade de Filosofia e CiênciasUniversidade Estadual Paulistajezio@editora.unesp.brABSTRACT: Kuhn is universally regarded as one of the most prominentchampions of the historical philosophy of science. A standard reading of theclassical Structure of Scientific Revolutions makes clear that allegiance tothe ‘historicist’ approach. The same reading, for the same reasons, mightregard Kuhn, as much as Quine, as a strict naturalist. In the present paper Ichallenge such a reading and attempt to show some of nuances and com-plexities that surround a presumed ‘Kuhnian naturalism’.KEY-WORDS: Thomas S. Kuhn; Naturalism; Historical Philosophy ofScience.Uma análise trivial atesta a pujança corrente das diversas variáveis do naturalis-mo na epistemologia contemporânea. De fato, esse talvez tenha sido o mais dramático ebem-sucedido avanço de qualquer tendência filosófica ao longo da segunda metade doséculo XX.E o rápido e óbvio crescimento da facção naturalista é tanto mais notável quandose lembra o sólido entrincheiramento de seus mais formidáveis “inimigos naturais”,constituídos por ícones da epistemologia tradicional.O conflito, cada vez mais complexo, entre ambos é bem conhecido pela comuni-dade filosófica que, por mais de quarenta anos, vem ansiosamente acompanhando seusdesdobramentos, mas permanece sendo útil relembrar algumas de suas peças fundamen- 1 Este artigo é versão modificada de comunicação originalmente apresentada no VII Encontro Brasileiro
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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828141 tais, como traços básicos de cada um dos contendores e a fonte da aparente radicalidadede sua discordância. Não tentaremos evidentemente definir os contornos precisos decada um, tarefa descabida para nossos propósitos imediatos, mas é possível chegar aalguns elementos arquetípicos que foram ficando gradualmente mais nítidos ao longodos debates travados. Esse é o caso, em relação aos naturalistas, de uma tese geral, ou“tese de consenso”, como recentemente chamada, perceptível ao longo de todas as su-cessivas ramificações do naturalismo: “os conceitos e teorias epistemológicas são vulne-ráveis ao crivo da experiência, do mesmo modo que as teorias científicas”2.Muito depende da maneira como se entende tal paralelo entre as teorias episte-mológicas e as científicas. Mas, em qualquer interpretação, é patente que, à primeiravista, fica abalado o perfil que a filosofia (pelo menos de tradição fregeana) se atribuía:o de uma disciplina a priori, de caráter normativo e independente de considerações em-píricas e/ou psicológicas.Efetivamente, a rígida distinção entre os contextos de descoberta e justificaçãodefendida por expoentes da filosofia clássica e explicitada com veemência pelos neo-positivistas vienenses, do começo do século XX, tinha como corolário a conclusão deque à epistemologia e à filosofia caberia tão somente uma preocupação de cunho estri-tamente limitado à esfera da justificação, relegando-se o contexto da descoberta ao es-crutínio da ciência empírica. Como se sabe, a falange naturalista incisivamente rejeitaesta conclusão e, quando a tese de consenso chega à sua interpretação mais carbonária,por exemplo, com Quine, conclui que a epistemologia deveria ser reduzida à ciênciaempírica. É bem verdade que Quine, sob este aspecto, não é acompanhado por todos osdemais naturalistas de plantão, que não atribuem o mesmo significado à “tese de con-senso”, mas também não está sozinho em seu repto aos objetivos e caracterização clás-sica da epistemologia, como se pode facilmente constatar em passagens como as seguin-tes, típicos adornos do panorama filosófico do final do século XX: “a epistemologia,concebida corretamente, é uma parte da psicologia do desenvolvimento, individual esocial”3. E ainda, de forma mais elaborada: “se a filosofia da ciência é naturalizada, osfilósofos da ciência se encontram na mesma situação dos historiadores, psicólogos, so- Internacional de Ciência Cognitiva, realizado em outubro-novembro de 2006, em São Paulo. 2 Abrantes, P. – “Naturalizando a Epistemologia”, p. 171. Meus itálicos.3 Paul Churchland – Scientific Realism and the Plasticity of Mind, p. 123-4.
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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828142 ciólogos e outros para os quais o estudo da ciência é ele mesmo um empreendimentocientífico. O máximo a que podem aspirar os filósofos da ciência é a serem os ‘teóricos’de uma ciência da ciência em desenvolvimento, conforme o modelo de uma Física Teó-rica”4.A filosofia, assim, perde seu estatuto de “Filosofia Primeira”, de “Rainha dasCiências” – epíteto que lhe é conferido por Kant –, para cair, como preconizado pelainterpretação radical da “tese de consenso”, na vala comum das demais teorias empíri-cas. Seu caráter normativo, ou ao menos a legitimidade de seu caráter normativo, fica,portanto, como vimos, ameaçada, posto que não lhe pode ser atribuído qualquer grau delegítima precedência argumentativa relativamente às demais disciplinas (empíricas ounão): caberia a ela unicamente a função de descrever, explicar talvez, mas dificilmente ade legislar.No entanto, a apresentação do naturalismo dessa maneira esquemática – isto é,pelo contraste com seus oponentes típicos –, não faz justiça aos seus contornos reais, àsua complexidade, ao panorama no qual atua e às afinidades que o ligam a autores apa-rentemente díspares. Creio que, tanto quanto a análise de suas esperáveis diferençasrelativamente a certos filósofos de cepa “fregeana”, o exame da turbulenta convivênciada “tese de consenso”, versão radical, com propostas filosóficas reconhecidamente re-ceptivas ao crivo da práxis científica poderia fornecer tanto uma descrição mais acuradado que se deveria entender por um “programa naturalista”, quanto uma imagem maisjusta do significado daquelas propostas individualmente consideradas. Em outras pala-vras, a acareação do naturalismo, ou, mais especificamente, da “tese de consenso”, comseus potenciais simpatizantes é tanto ou mais elucidativa quanto sua justaposição cominimigos naturais.Para empreender esse contraste, selecionamos o nome de Kuhn. A escolha não égratuita: reconhecidamente, o Kuhn de A estrutura das revoluções científicas foi um dossímbolos maiores da “guinada historicista” da epistemologia, um autor que continua-mente, ao longo de quase meio século, sacramentou o matrimônio entre a práxis e aepistemologia, foi confessadamente influenciado por Quine e influenciou diretamenteparcela significativa dos autores mais identificados com o naturalismo. 4 Ronald Giere – “Philosophy of Science Naturalized”, Philosophy of Science, v. 52, p. 343.
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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828143 Todavia, ainda que se aceite o paralelo traçado, persistem algumas diferençasnotáveis entre a epistemologia kuhniana e aquela adotada por Quine. Uma rápida consi-deração dessas diferenças e aproximações talvez possa ser útil não apenas para umatarefa definicional ou taxonômica – o rótulo ‘naturalismo’ ou a inserção de Kuhn entreadeptos dessa vertente é pouco mais que irrelevante –, mas para que possam ser identi-ficados elementos interpretativos importantes à proposta naturalista e, especialmente,considerados os nossos propósitos presentes, à teoria kuhniana.Até o ponto em que, como filósofos, Kuhn e Quine reconhecem o papel essenci-al da prática e história das disciplinas científicas – história não mais como repositório deanedotas e ilustrações, na conhecida descrição de Kuhn, mas como definidora da estru-tura do método –, podem eles ser defensavelmente reconhecidos como expoentes dealguma cepa naturalista. Mas, desde este ponto de convergência, seus caminhos diver-gem. Ao que tudo indica, o papel da história em Kuhn é mais restrito e qualificado doque em Quine. Ainda que indicar uma posição quineana ‘estável’ seja sempre tarefaingrata, ele parece em alguns momentos apoiar o que I. Lakatos chamou de critério“quase-polanyita” de decidibilidade meta-metodológica, critério que espelha quase queliteralmente a “tese de consenso” em sua versão sangüínea: “uma teoria da racionalida-de [...] deve ser rejeitada caso seja inconsistente com ‘juízos básicos de valor’ aceitospela comunidade científica”5. Consistência com a história (e a práxis) seriam, portanto,o principal critério para a aceitação de uma teoria do método científico. E, à primeiravista, um autor como Kuhn, por exemplo, não teria nada contra tal asserção. De fato, eleadmoesta o próprio Lakatos por não ter sido suficientemente fiel ao critério que identifi-cou6! No entanto, essa impressão é enganadora e demanda um comentário sobre o in-trincado relacionamento entre a história da ciência e a teoria epistemológica de Kuhn.É importante lembrar que, ao enfatizar o papel decisivo da história da ciência aolongo do processo de investigação metodológica, Kuhn não a está considerando comoinstância hierarquicamente superior a outras disciplinas, fonte de uma pedra de toquearquimédica que tivesse o dom de avaliar os méritos de teorias científicas. Se não poroutro motivo, a impossibilidade, reiteradamente proclamada por Kuhn, de se apresentar“fatos” puros, sejam eles históricos ou físicos, já mostra bem a radical dificuldade de se 5 Lakatos, I. – “Popper on Demarcation and Induction”, p. 246.
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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828144 substituir o denunciado mito de uma Filosofia Primeira pelo mito de uma História Pri-meira. Sem dúvida, Kuhn sustenta que a chamada “nova historiografia” provê um perfildo empreendimento científico superior àquele que qualquer metodologia idealizada po-deria fornecer. Mas se o resultante retrato da ciência é mais adequado, não pode ser e-quiparado ao retrato “verdadeiro” justamente porque sua ‘adequação’ depende de consi-derações filosóficas que transcendem o ‘dado’ histórico ou empírico: tanto quanto afilosofia ortodoxa, Kuhn jamais pretendeu eliminar os aspectos normativos da investi-gação epistemológica em favor de uma abordagem meramente descritiva, fundada sobrea experiência. Longe de promover uma epistemologia empírica contra a idéia tradicio-nal, o que Kuhn efetivamente tentou fazer foi quebrar a rígida associação entre ‘norma-tividade’/racionalidade e procedimentos ‘lógicos’ e ‘algorítmicos’.É esta restrição à hipertrofia do papel da experiência em discussões metodológi-cas e epistemológicas que distingue o naturalismo de Kuhn de versões mais radicais.Mas mesmo se descurarmos as críticas de naturalistas radicais, Kuhn ainda suscita – naverdade, sempre suscitou – desconfiança da parte de simpatizantes, radicais ou modera-dos, do naturalismo7. A explicação para isso decorre, penso, da constatação, cada vezmais evidente em Kuhn, de suas inclinações transcendentalistas. De fato, desde finais dadécada de 1980 até a sua morte, Kuhn, por diversas vezes, atestou sua proximidade deKant e, nos anos subseqüentes, essa confluência foi sendo cada vez mais corroboradapor seus mais competentes comentadores e seguidores. Desde o ainda insuperado livrode Hoyningen-Huene8 sobre a obra kuhniana, até os comentários de Michael Friedman,constantes em Dynamics of Reason (2001), e, finalmente, num dos mais recentes e cui-dadosos trabalhos específicos a respeito da herança kantiana em Kuhn, “The Transcen-dental Method and (Post-) Empiricist Philosophy of Science” (2005), de autoria de SamiPilhström e Arto Siitonen, estabelece-se definitivamente o profundo e fértil entrelaça-mento de Kuhn com a linhagem kantiana.Basicamente, adaptando-se uma classificação devida a Friedman, pode-se locali-zar o transcendentalismo kuhniano em dois níveis constitutivos da estrutura e dinâmicados sistemas de conhecimento científico. No primeiro deles, encontramos os princípios 6 Cf., e. g., Kuhn, T. S. – “Notes on Lakatos”, especialmente seção v e passim.7 Cf. Philip Kitcher, em “Naturalists’ Return” (1991), onde afirma não ser de modo algum claro que Kuhn seja um naturalista.
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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828145 apriorísticos de constituição, os paradigmas, ou, em nomenclatura kuhniana mais recen-te, os ‘léxicos’. No segundo nível, identificam-se os meta-paradigmas que orientam astransições inter-paradigmáticas e permitem a comunicação, embora não destituída dedificuldades, entre as matrizes. Em ambos esses casos, tanto os paradigmas quanto osmeta-paradigmas são princípios transcendentais.Tomadas à primeira vista, essas conclusões parecem dar toda a razão aos críticosnaturalistas e, para alguns, chegam a sugerir uma redefinição do sistema kuhniano qua‘fundacionista’. A reação de Alexander Bird, em “Naturalising Kuhn” (2005), parece-me, a esse respeito, ilustrativa. O bom Kuhn, segundo Bird, foi naturalista na Estruturadas revoluções científicas. O notório e extensivo reconhecimento do papel da historio-grafia e, especialmente, da psicologia da percepção na constituição dos paradigmas foitestemunha de um Kuhn genuinamente naturalista, um autor seminal para a vaga natura-lista posterior. O Kuhn mais recente, contudo, seria fundamentalmente ‘maçante’(sic),um pensador que abandonou o naturalismo em favor do transcendentalismo para obter oreconhecimento da comunidade filosófica e, assim, superar o trauma decorrente da au-sência desse mesmo reconhecimento quando da publicação original d’A estrutura dasrevoluções científicas. É tentador concluir que, para Bird, o bom Kuhn é o Kuhn morto...Boutade à parte, o quadro interpretativo é realmente tenso e, por isso mesmo,hoje, mais do que nunca, a estação de caça ao naturalismo de Kuhn está em plena vi-gência. Entretanto, não devemos desprezar as especificidades do ‘transcendentalismo’kuhniano, especificidades que se tornam nítidas pela relativização dos princípios a prio-ri – paradigmas e meta-paradigmas –, e a equivalente adoção de um apriorismo revisá-vel. E essa peculiaridade do transcendentalismo de Kuhn mais uma vez o reaproxima donaturalismo. Um rápido retorno ao modelo kuhniano de racionalidade científica talvezpossa tornar esse ponto mais claro.Especialmente o Kuhn do período transcendental, para aceitar a caracterizaçãode Bird, tem como preocupação central aquilo que James Conant e Putnam chamaramde “problema da interface” e que, no tratamento recebido na Dissertação de 1770, inau-gura o período crítico kantiano: como vincular nossos conceitos e teorias ao real. É ten- 8 Hoyningen-Huene, P. – Reconstructing Scientific Revolutions (1993).
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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828146 do como objetivo a solução daquele problema que a epistemologia kuhniana procuraestabelecer padrões de decidibilidade que preservem a racionalidade científica e o pro-gresso: aquelas características que o senso comum e a mais respeitada literatura histori-ográfica reconhecem como inerentes à ciência. A conclusão forçada é a de que as nor-mas componentes da metodologia científica deveriam ser avaliadas de acordo com suacapacidade de alcançar aquela meta.Ora, Kuhn acredita que o progresso científico é um fato inquestionável e que ométodo efetivamente seguido pela prática da ciência tem propiciado tal avanço de formasegura e constante, razão suficiente para que tal prática seja preservada. Essa convicçãoé expressa em passagem muito citada: “tome-se um grupo das mais capazes pessoasdisponíveis imbuídas da mais apropriada motivação; que elas sejam treinadas em algu-ma ciência e nas especialidades relevantes para a escolha em pauta; incuta-se-lhes osistema de valores, a ideologia, presentes em sua disciplina [...]; e, finalmente, permita-se-lhes fazerem a escolha. Se esta técnica não explicar o desenvolvimento científico,nenhuma o fará. Não pode haver um conjunto de regras de escolha adequadas para esta-belecer comportamentos individuais desejáveis nos casos concretos que cientistas en-contrarão nos cursos de suas carreiras. O que quer que possa ser o progresso científico,poderemos abordá-lo pelo exame da natureza do grupo científico, descobrindo o que elevaloriza, o que tolera e o que despreza”9. Em outras palavras, o tribunal de última ins-tância, onde o destino das teorias e da escolha científica em geral é decidido, será en-contrado nos procedimentos e estrutura de decisão da comunidade científica, uma enti-dade histórica e sociologicamente definida. Como Kuhn resume a situação – de umaforma que, a meu ver, consubstancia seu principal repto à epistemologia tradicional e ocredencia como naturalista –, que “melhor critério do que a decisão de um grupo cientí-fico?”10. Assim, se outras metodologias são criticadas por ele é exatamente porque sãoincapazes de atingir os mesmos resultados. Um falsificacionismo purista e ingênuo, porexemplo, é desqualificado por Kuhn principalmente porque o crescimento científico nãopoderia ser preservado sob a égide de inflexíveis testes cruciais11. E, se um método fun-damentado sobre a prática real da ciência é exaltado, isto ocorre por ser tacitamente 9 Kuhn, T.S. – “Reflections on my Critics”, p. 237-8.10 Kuhn, T.S. – The Structure of Scientific Revolutions, p. 170.11 Cf. Kuhn, T.S. – The Essential Tension, pp. 284 e ss.. Para uma leitura similar, veja-se Putnam, H. – “The Corroboration of Theories”, pp. 222 e ss.
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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828147 considerado como a via mais consistente e eficiente para o progresso: “os cientistas secomportam de maneira específica; estas formas de comportamento têm (aqui entra ateoria) um certo número de funções essenciais; na ausência de um procedimento alterna-tivo que preencha as mesmas funções, os cientistas deveriam se comportar essencial-mente como o fazem caso seu objetivo seja o de aperfeiçoar o conhecimento científi-co”12.Sem dúvida, pode-se ainda perguntar o que Kuhn entende aqui por “progressocientífico”. Mas, independentemente dos compromissos implicados pela sua complexa epolêmica concepção de progresso, o fato é que, para ele, o fator determinante para aconsecução do progresso é a própria prática científica, não cerceada por regras ideais.É claro que definições podem ser mantidas de maneira rígida e este caso não éexceção: certamente ainda se poderia dizer que autores como Kuhn não são legítimosnaturalistas por não admitirem a “tese de consenso” em toda a sua extensão. Contudo,isto lembraria atitude mais próxima ao farisaísmo doutrinário do que à saudável caracte-rização e preservação de um projeto e se afasta de caracterizações semi-canônicas donaturalismo. Efetivamente, a proposta kuhniana, a meu ver, é consistente com o queAlvin Goldman, em “Naturalistic Epistemology and Reliabilism” chama respectivamen-te de “naturalismo meta-epistêmico” e, especialmente, “naturalismo metodológico”. Ébem verdade que, para Kuhn, a história, em particular, e a experiência, em geral, nãopodem ‘testar’ a epistemologia; é bem verdade que Kuhn abraça uma espécie de aprio-rismo; mas ainda assim, a história e a práxis são as fontes básicas de legitimação meto-dológica e meta-metodológica.Pelos motivos aventados, parece ao menos plausível equiparar Kuhn, no mínimoa um filo-naturalista ou, com mais justiça e precisão, a alguém que assume por ‘serendi-pitia’, ao longo de sua caminhada transcendental, uma cunha naturalista: um ‘naturalistaacidental’. 12 Kuhn, T.S. – “Reflections on my Critics”, p. 237. Consulte-se também The Structure of Scientific Revo- lutions, p. 207-8. Putnam segue trilha semelhante em Reason, Truth and History, cap. 8 e passim.
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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828148 REFERÊNCIAS:ABRANTES, P. Naturalizando a epistemologia. In: ABRANTES, P. (Org.) Epistemo-logia e Cognição. Brasília: Editora da UnB, 1993.BIRD, A. Naturalising Kuhn. Proceedings of the Aristotelian Society 105, p. 109-127,2005.CHURCHLAND, P. Scientific realism and the plasticity of mind. Cambridge: Cam-bridge University Press, 1987.FRIEDMAN, M. Dynamics of reason. Stanford: CSLI, 2001.GIERE, R. N. Philosophy of science naturalized. Philosophy of Science, v. 52, p.331-356, 1985.GOLDMAN, A. Naturalistic epistemology and reliabilism. In: FRENCH, P. A., UEH-LING, T. E. e WETTSTEIN, H. K. (Ed.). Philosophical naturalism. Notre Dame: Uni-versity of Notre Dame Press, 1994.KITCHER, P. Naturalists’ return. The Philosophical Review, v. 101, n. 1, p.53-114,1992.KUHN, T. S. Notes on Lakatos. In: BUCK, R. C. e COHEN, R. S. Cohen (Eds.) PSA1970: In Memory of Rudolf Carnap, Proceedings of the 1970 Biennial Meeting,Philosophy of Science Association. Dordrecht and Boston: D. Reidel, p. 137-146,1971.KUHN, T. S. The Essential Tension. Chicago: Chicago University Press, 1974.KUHN, T. S. Reflections on my critics. In: LAKATOS, I., MUSGRAVE, A. (Ed.)Criticism and the growth of knowledge. Cambridge: Cambridge University Press,p.231-278, 1970. (Trad. brasileira: “Reflexões sobre meus críticos”. In O caminho desde‘A estrutura’. São Paulo: UNESP, 2006).KUHN, T. S. The structure of scientific revolutions. (3a. ed.). Chicago: Chicago Uni-versity Press, 1996. (Trad. brasileira: A estrutura das revoluções científicas. São Paulo:Perspectiva, 1978.) LAKATOS, I. Popper on demarcation and induction. In: SCHILPP, P. A. (Ed.) Thephilosophy of Karl Popper (vol. I). La Salle: Open Court, p.241-273, 1974.PIHLSTRÖM, S., SIITONEN, A. The transcendental method and (post-) empiricistPhilosophy of Science. Journal for General Philosophy of Science, v. 36, n. 1, p. 81-106, 2005.
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____________________________________________________________________Revista Eletrônica Informação e Cognição, v.5, n.2, p.40-49, 2006. ISSN:1807-828149 PUTNAM, H. The ‘corroboration’ of theories. In: SCHILPP, P. A. (Ed.) The philoso-phy of Karl Popper (vol. I). La Salle: Open Court, p. 221-240, 1974.PUTNAM, H. Reason, truth and history. Cambridge: Cambridge University Press,1981.
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